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Isolamento da adolescência

Paulo Araujo 23 Abril, 2017 1
Isolamento da adolescência

Por: Carla Ferreira – Psicóloga, Psicoterapeuta

A adolescência é a altura da vida em que o horizonte se abre e se esconde ao mesmo tempo, diante dos olhos. É onde o caminho parece querer desenhar-se num mundo de oportunidades, ao mesmo tempo que o corpo choca com tudo de frente, pessoas, objectos, ideais e limites. É a primeira vez na nossa vida em que as idades se tornam difíceis de encaixar em concreto, onde se é suficientemente grande para ser responsável, e ainda muito pequeno para sair à noite, muito crescido para arrumações de espaços, tremendamente infantil quando se trata de emitir um parecer, que pode até ser consistente, mas não apresenta a substância da maioridade e da experiência.

É uma fase de procura e desencontro, de escolhas para uma vida que por vezes nem sequer sabemos o que são, mas é o sistema, e portanto teremos mesmo de escolher se queremos letras ou matemática, ciências ou desporto, temos de pensar no futuro (o que será isso do futuro?). E facilita um pouco se fingirmos que tudo isto é fácil, perante o adulto que já esqueceu que o Rui Veloso cantava uma música fixe, que dizia o que todos sentimos, mas num ápice esquecemos. Não há estrelas no céu a dourar o caminho dos adolescentes, há muitas vezes umas nuvens estranhas de onde chovem gafanhotos enormes. Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho, porque cada um deles tem o seu próprio mundo diferente do meu, ou então demasiado igual, tão igual que é impossível encaixar, é como um puzzle de peças semelhantes. Tão depressa o sol brilha, como num instante está a chover, e pode ser no mesmo dia ou na hora seguinte, porque o teste correu péssimo, porque a namorada foi ali e já não veio, porque uma borbulha explodiu no rosto, exactamente quando passou o rapaz mais giro lá da escola.

O isolamento na adolescência (e sempre, sempre sempre…), nem sempre é visível. O isolamento na adolescência pode encontra-se mascarado de sorrisos nervosos, de algumas pessoas ao redor, mas vai muitas vezes aparecendo discreto, à espera de ser visto e despercebido ao mesmo tempo. Estranho, não é? Não, não é. O isolamento nem sempre significa que queremos estar sozinhos. O isolamento pode simplesmente querer dizer que já não sabemos de nós, que nos perdemos numa estrada sem candeeiros, e que precisamos que nos acendam uma luz. E pode também significar que precisamos de uma mão que realmente esteja só ali, sem arriscar a superioridade do que está certo e do que está errado, e que nos deixe apenas sentir que existem mãos que não julgam nem criticam. E pode ainda, sim, significar isolamento real, aquele que já pode trazer dores mais difíceis de curar, muito mais compactas do que qualquer música de um rock a sério, consiga adormecer.

Lembro-me tão bem de ser adolescente que hoje continuo a admirar cada um deles, quando com os cabelos na testa me desafiam a inteligência. Estamos aqui e somos donos do mundo, parecem dizer-me. E são. Mesmo que não pareça, mesmo que se percam, mesmo que precisem de caminhos alternativos. Têm no corpo todas as direcções. Só é preciso não deixarmos que o mundo deles escureça além do que os seus olhos vêm,  numa noite de lua em quarto crescente.

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Comentários »

  1. Maria Isabel 20 Maio, 2017 at 19:18 - Reply

    Boa noite Carla Ferreira. Gostei do que li. A idade da adolescência preocupa-me bastante. E então este jogo maldito que apareceu agora da”Baleia Azul” ainda piora. Os pais têm que estar mais presentes e o que vejo é que cada vez mais os jovens que têm problemas se isolam. Não conversam com ninguém nem com a família nem com os amigos. Depois encontram no facebook alguém que se faz amigo que os anima, com palavras doces, com fotografias falsas e elas e eles entram em emboscadas muito difíceis de sair. Em casa tem que haver diálogo, compreensão, carinho, companheirismo e olhar com olhos de ver para a cara e os olhos dos filhos. Os olhos dizem tanto…

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