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Porque escolhemos tão cedo o que fazer da nossa vida?

Paulo Araujo 22 Fevereiro, 2018 0
Porque escolhemos tão cedo o que fazer da nossa vida?
Por: Carla Ferreira – Psicóloga, Psicoterapeuta

A vida começa em nós desde que nascemos, ou melhor, desde que somos concebidos. Discussões sobre esse início real ficam de fora deste texto, dependem da biologia, da crença, da consciência, da vontade e da necessidade. Não opino, não concordo e não me oponho, se é que me explico… Desde aí, da concepção, do nascimento, do que entendam ser um começo, caminhamos sobre uns carris que andam rápido, sem direito a mudar de carruagem, sem parar em alguma estação ou apeadeiro, sem conseguir demorar num lugar de um qualquer sossego um bocadinho mais do que o tempo real nos permite, ou seja, temos sempre só o segundo corrido, o minuto presente, a hora em que descobrimos que uma vez passada, não mais regressa ao corpo que a viveu. Nem a mais nenhum corpo, entenda-se, o tempo é o dono de todos nós.

Na mesma exacta medida em que todos nós somos donos do nosso tempo. Confuso? Provavelmente… Mas dizia eu que passa. E se há lugares e locais onde poderemos remendar o caminho, há outros que, muito embora nos permitam o retrocesso, têm uma palavra a dizer mais vincada, menos volátil, mais permanente no tempo, muito mais limitativa do que escolher praia num dia, e campo no outro.

Ao nono ano, repito, ao nono ano, com quinze ou dezasseis primaveras de vida, somos convidados a decidir o nosso futuro. Somos forçados a escolher entre as ciências mais exactas, e a abstracção da língua e das ideias. E é nesse momento, onde tudo o resto fala mais alto (porque vocês podem ter esquecido, mas na adolescência o mundo grita), que somos impelidos pelo sistema de ensino a decidir em que lugar do mundo nos queremos vir a sentar. Ou a ficar de pé, em sentinela e em respeito ao que é soberano.

Pais e professores acabam por engrenar no que é superiormente orientado, é a força da instituição, e sendo assim, por esta altura, por este país fora, há milhares de jovens que até ao final do ano lectivo têm de fazer uma escolha determinante, quando a capacidade de o fazerem é ainda rudimentar. Deverá ser forte o poder de análise e de escolha, dirão os eruditos sobre a questão. Pois não sei, deixo ao vosso encargo reponderem, analisando para dentro e baixinho (lá, onde ninguém nos escuta as fraquezas), quantas vezes se enganaram no trajecto, quantas ocasiões estão remendadas por pedacinhos de tecido de outra cor, quantas tábuas ao certo tem a vossa histórias, a tapar os buracos vazios do que se deixou para trás, por infelicidade do poder de decisão.

Acredito que um dia se mude a orgânica. Creio que haverá a hora em que a flexibilidade dos exames deixe uma margem para a mudança, para a reorganização, para o crescimento em outra direcção, para a liberdade. Por enquanto, com o caminho recto da linha exacta (a matemática vence em tudo menos na mente humana), peço a quem está por perto que os orientem e acolham, na dúvida que pode mudar o mundo. Não muda o mundo? Muda, muda o mundo de cada jovem (o mundo que interessa, portanto, que o resto é conversa!).

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