Bookmaker artbetting.co.uk - Bet365 review by ArtBetting.co.uk

Bookmaker artbetting.gr - Bet365 review by ArtBetting.gr

Germany bookmaker bet365 review by ArtBetting.de

Premium bigtheme.net by bigtheme.org

RELATO IMPRESSIONANTE DE UM RIOMAIORESENSE QUE VIVEU DE PERTO O CICLONE IDAI

Paulo Araujo 28 Março, 2019 0
RELATO IMPRESSIONANTE DE UM RIOMAIORESENSE QUE VIVEU DE PERTO O CICLONE IDAI
Mário Duarte vive na cidade da Beira desde 2011

Ao ter conhecimento que havia um riomaiorense a residir na cidade moçambicana da Beira, local que, recentemente, foi drasticamente destruído pelo ciclone Idai, o Comércio & Notícias entrou em contacto com ele para nos relatar em pormenor o drama vívido e como está a ser o “renascer” de uma cidade que ficou bastante abalada.

Abaixo transcrevemos na íntegra o testemunho de Mário Duarte:

“O meu nome é Mário Duarte, tenho 39 anos, sou de Rio Maior e estou na Beira há 8 anos. Vim em 2011 com a minha mulher. Os nossos dois filhos já nasceram cá, a menina em 2012 e o rapaz em 2016.

Esta zona é normalmente fustigada por algumas intempéries: fortes chuvas acompanhadas por vezes de vento forte e trovoadas. A Beira está localizada numa zona pantanosa e abaixo do nível das águas do mar, o que provoca inundações recorrentes.

Mas não há memória de tempestade tão forte como o Ciclone Idai que atingiu a região na noite de 14 de março.

No dia 10 de março começou a circular no WhatsApp informação sobre o risco de cheias urbanas nesta região devido a chuvas fortes, mas ainda sem mencionar que se tratava de um ciclone tropical. Por volta do dia 12, foi quando se começou a falar na aproximação de um ciclone com ventos que poderiam atingir os 200 km/h, mas informação oficial não chegava às pessoas. A minha mulher começou a procurar em sites de meteorologia e aí começámos a acompanhar a evolução do Ciclone Idai. A mensagem começou, entretanto, também a passar via grupos do WhatsApp. Nessa altura a minha mulher sugeriu que se reforçasse o stock de água mineral e alimentos não perecíveis, porque não sabíamos o impacto que o ciclone poderia provocar.

Fomos avisando a família em Portugal para o que aí vinha, pois calculávamos que as comunicações fossem afetadas.

No dia 14 de manhã, eu saí para ir trabalhar. As crianças já tinham sido avisadas de véspera de que não haveria escola. Eu recebi um telefonema da empresa onde trabalho a informar que o Governo tinha decretado recolher obrigatório a partir das 11h00 da manhã (09h00 em Portugal). Voltei para casa.

A chuva já caía e o vento começava a ganhar força. Por volta das 12h30 tivemos de nos deslocar a uma clínica médica porque o nosso filho estava a fazer febre há já alguns dias e não havia meio de passar com os medicamentos, e fomos fazer o teste da malária, que felizmente acusou negativo. Nessa altura a chuva já era forte e o vento soprava também já com alguma intensidade. Poucas pessoas se viam na rua.

Voltámos a casa por volta das 14h00 e as condições atmosféricas pioravam. Mandámos o nosso guarda embora (todas as casas aqui têm um guarda) para poder estar com a família dele e guardar a sua casa.

A tarde foi passando e a noite foi chegando com chuva e ventos muito fortes. Já circulava pelo WhatsApp algumas imagens de danos causados pelo vento durante a tarde (postes e árvores caídos, vidros partidos, algumas chapas que cobrem os telhados começavam a voar). Em casa tentávamos prender as janelas às grades com corda para que aguentassem o vento. Preparámos mochilas com alguns bens para o caso de termos de abandonar a casa.

À medida que a noite ia passando, os ventos eram cada vez mais fortes e o barulho era intenso. Já se ouviam chapas a voar. Na estrada à frente da nossa casa passava um ‘rio’ com água da chuva e do mar, que dista cerca de 1 km da nossa casa. Íamos comunicando com a família em Portugal. Às 23h52 enviei à minha irmã, aquela que seria a última mensagem, a dizer: ‘Isto ainda vai a meio’. Depois disso apagão geral, ficámos sem eletricidade e sem comunicações, rezando para que tudo aquilo passasse rápido.

Começámos a ouvir pedaços do telhado de lusalite a partirem-se e a caírem. Subimos ao 1.º piso da casa e no nosso quarto já pingava. Tentámos tirar o que era de maior valor e o teto falso parecia que ia desabar com a pressão do vento. Saímos e pegámos nos nossos dois filhos que dormiam descansados no quarto ao lado, e fomos para o piso de baixo, para a sala.

Entre as 00h00 e sensivelmente a 01h30 houve um momento de alguma acalmia, mas mal nós sabíamos o que estava para vir. Os ventos voltaram ainda mais fortes. As janelas não aguentaram, começaram a abrir e a bater, os vidros a partirem-se, o telhado continuava a cair e a chuva e o vento entravam por todo o lado. Refugiámo-nos na cozinha, o único sítio da casa onde não entrava chuva. Dois adultos, duas crianças e os nossos dois cães. A minha mulher tentava reduzir a febre do nosso filho que chegou a atingir os 39, 5º. Eu sentei-me encostado à porta com medo que o vento que entrava pelas janelas conseguisse derrubá-la. O barulho do vento era assustador. Continuava-se a ouvir chapas a voar e a bater pelas paredes das casas. Telhados a cair. E não havia meio de passar. Só pedia para que o teto não desabasse.

Por volta das 07h00 da manhã, levantei-me do chão da cozinha depois de ter fechado os olhos durante umas 2/3 horas, mas sem ter descansado.

O vento já tinha acalmado. A chuva continuava, mas mais fraca. Comecei a espreitar pelas janelas. O nosso coqueiro caiu com a força do vento, felizmente para a estrada e sem danificar o muro de vedação. Os nossos carros pareciam intactos. Os pedaços de lusalite que caíram do telhado, caíram caprichosamente à volta de um deles. O portão de correr por onde entram as viaturas, saltou das calhas e ficou preso pelo cadeado. Janelas e vidros da casa partidos. Troncos das mangueiras partidos. Dentro de casa, a água escorria pelas paredes e pelos bocais dos candeeiros. O 1.º piso estava alagado em água. No meu quarto continuava a cair água. Num outro quarto parecia que o ciclone tinha estado lá dentro, tal era a revolução.

Saímos de casa para ver a cidade e saber dos nossos amigos. Era quase impossível transitar, tal era o número de árvores caídas e destroços nas ruas. A cidade da Beira estava irreconhecível. As árvores que não caíram, ficaram despidas das suas folhas. Junto ao mar, em alguns pontos a estrada abateu ou foi levada pelo mar. A paisagem tinha mudado.

Já havia pessoas a apanharem chapas que tinham voado para voltarem a cobrir as casas, outras apanhavam a areia molhada que tinha sido trazida pelo vento para a estrada, outras começavam a cortar as árvores caídas para desimpedir o trânsito e aproveitando para fazer barrotes para os telhados.

Na baixa da cidade, muitas lojas ficaram sem telhado e sem teto, outras os vidros partiram, e muitas foram pilhadas.

Fomos ver uma amiga nossa, médica cubana, que mora na baixa da cidade. O teto dela desabou na totalidade e passou a noite com o filho de 12 anos encostados a uma parede da casa a céu aberto. Estava de rastos!

Imensa gente, principalmente nos subúrbios onde as casas são precárias, ficaram sem nada. O vento deitou casas abaixo na totalidade. Armazéns acabados de construir, tinham caído. Na rua vendiam-se lanternas, pilhas e velas, a preços 4 vezes mais do que anteriormente!

Os dias seguintes foram marcados pela falta de energia, falta de água, falta de comunicações, falta de comida, falta de combustível. O que não faltava era a chuva. E sempre que a noite se aproximava, era mais um aperto no coração com medo de assaltos e que os ventos e chuvas fortes voltassem.

A reposição das comunicações por uma das três redes móveis em Moçambique foi bastante rápida, tendo em conta que Moçambique ainda é um dos países mais pobres do mundo e dos mais subdesenvolvidos. Todas as pessoas afluíam a um ponto da única estrada que permite sair da Beira, para poder ter rede. Cinco dias depois do ciclone, conseguimos comunicar com a família em Portugal, para dizermos que estávamos bem.

A limpeza das ruas e das estradas foram suportadas pelo sector privado que disponibilizou camiões e mão de obra para a recolha dos destroços, e efetuou-se a um ritmo impressionante. As filas para comprar pão costumam ser enormes.

O porto da Beira estava incapaz de receber navios, a única estrada que liga a Beira ao resto do país estava cortada em dois pontos, junto a Tica e Nhamatanda (75 km e 105 km) porque as águas levaram a estrada. Entretanto, uma empresa chinesa conseguiu abrir uma via para que o trânsito começasse a fluir.

A fome é muita e ajuda não está a chegar aos milhares de pessoas que vivem principalmente fora da cidade da Beira. Mesmo na cidade o número de crianças a pedir aumentou exponencialmente! A vila do Búzi, que se avista ao longe na outra margem da foz do rio Pungué, ficou praticamente submersa, e pessoas continuam a ser resgatadas.

O sol voltou a brilhar passados uns 10 dias, o que dá algum alento às pessoas que tentam voltar às suas rotinas.

O nível das águas começou a baixar. O problema agora são as doenças que podem vir por causa, principalmente, das águas paradas. A cólera e a malária são doenças que irão matar de certeza.

Vamos ver quanto tempo levará esta região para se reerguer. E felizmente estamos cá para contar este episódio”.

 

www.autopecas24.pt FPRM --> PASKA CAR Gina Morais Wash Rio Riografica Riografica

Comentar »

Deve iniciar sessão para comentar.