
Por João Maurício
“O tempo tem o seu próprio ritmo. É como um rio, que sempre flui. Carrega lembranças, sonhos e experiências. Não tem caminho de volta!”. Vinicius de Moraes, poeta brasileiro.
Cem anos é muito tempo, espaço de duas gerações. Em termos históricos é uma gota de água no oceano. Mas para as novas gerações que vivem noutro ritmo, 1926 foi há uma eternidade. Falhada a experiência democrática da Primeira República, há um século, chegou a Ditadura que veio para ficar.
Rio Maior, como todo o País, aderiu ao novo Movimento. O povo estava marcado pela primeira guerra mundial e pelos malefícios da pneumónica e farto das perseguições que Afonso Costa tinha feito à Igreja.
A obrigação de quem estuda História é compreender os eventos do passado e as suas causas. O tempo histórico vai para além das datas.
Rio Maior atravessou a Ditadura com alguma contestação mais ou menos visível, mas vinda de setores minoritários. O resultado eleitoral de Humberto Delgado, em 1958, é a prova do que afirmámos anteriormente.
Da publicação “Ecos do Século XX – Distrito de Leiria – Outubro 2004”, retirámos o seguinte excerto «O Movimento Militar de 28 de Maio de 1926 – Regimento de Leiria é o primeiro a avançar.
A súplica do padre Lacerda, então coronel capelão-militar, ao general Gomes da Costa, para que condecore a Bandeira do Regimento de Infantaria 7, tem outro argumento de peso: “foram as companhias (do 7) que se achavam aquarteladas nas Caldas da Rainha aquelas que primeiro iniciaram o movimento nacional de 28 de Maio”. “O Mensageiro” de 7 de Agosto, conta como foi.
“Infantaria 7 foi o primeiro regimento a quem coube a honra de, logo às primeiras horas da madrugada, abandonar o quartel para tomar parte – a mais activa – no movimento nacional de 28 de Maio. Encontrava-se então nas Caldas da Rainha em pleno decorrer da escola de recrutas. Na manhã de 28 de Maio os recrutas tinham-se aprontado para o primeiro tempo da instrução – ginástica – quando inesperadamente e à pressa os mandam preparar em ordem de marcha. Assim, já dispostos e formados em duas companhias, dirigiram-se sob o comando superior de Exº. Capitão Oliveira Franco, tendo como imediato o Exº. Capitão Fernandes e dos respectivos subalternos, pela estrada de Rio Maior, onde, após um kilómetro de marcha, estacionaram. Eram 7.30 horas da manhã. (…) Enquanto se esperava por um pelotão, que tinha ido secretamente à Carreira de Tiro apreender todas as munições, cortavam-se as comunicações para Caldas. Chegado esse pelotão municiador, distribuiu-se rapidamente todo o cartuchame, dando a irrisória média de 30 cartuchos por praça.
Seguidamente, em jejum quási absoluto, pois houve quem não tivesse provado o café, iniciou-se a marcha memorável, nas piores circunstâncias que se pode imaginar. Os homens não se tinham precavido, não traziam dinheiro nem comestíveis. Não tardou muito que os rigores da fraqueza e inclemência da sede se fizessem sentir sob os raios solares já dardejantes. (…) Por todos os povoados marginais à estrada, os soldados, sequiosos e fraquíssimos, acorriam obstinadamente a todas as casas, pedindo água e pão. (…). A água, escassa e por vezes quási estagnada, era aspirada do fundo de algumas valetas. O calor sufocava, o pêso insuportável das mochilas quási estalava os ossos, e a poeira terrível completava a scena. (…). Este martírio atingiu o auge a uns quilómetros de Rio Maior. Dois soldados que já vinham na retaguarda, por cansaço, caíram desamparados. Dispararam-se logo dois tiros de socorro, o qual não tardou. Finalmente transpôs-se a custo a primeira e áspera etapa, de 26 Kilómetros, tal é a distância que separa Caldas de Rio Maior.
Nesta vila, atingida e tomada às 15 horas, foi desde logo instalado o serviço de vigilância rigorosa. Satisfez-se em seguida a necessidade imperiosa de socorrer os homens de alimentos e mais recursos. (…). À noite, eram 21 horas, retomou-se a marcha para Santarém, distante 27 kilómetros. Em S. João da Ribeira, localidade intermédia, foram prodigalizados mais recursos aos soldados, distribuindo-se-lhes pão, queijo, aguardente, etc, (…). A marcha prosseguiu regularmente para se suspender a 3 quilómetros da cidade escalabitana, na Quinta do Môcho.
E foi, assim, que o 7 de Infantaria soltou o primeiro grito de revolta, pois foram as companhias que se achavam aquarteladas em Caldas da Rainha, aquelas que primeiro iniciaram o movimento de ressurgimento nacional (…) ». Nota: respeitámos a ortografia e a construção frásica da época.
As forças ideológicas que se opunham à primeira república juntaram-se para a derrubar. Monárquicos, saudosistas, nacionalistas radicais, republicanos conservadores e católicos ultrafundamentalistas fizeram uma frente onde não havia uma ideologia definida.
O general Gomes da Costa foi figura cimeira do movimento. Esteve na Primeira Guerra Mundial, onde adquiriu prestígio. Não tinha formação política, era considerado pouco inteligente e terá sido manipulado por algumas figuras “pardas”. Teve atritos com outros militares e foi retirado de cena. Caiu em desgraça.
Afonso Costa foi Ministro da Justiça na Primeira República. Era um homem com uma inteligência rara, mas tinha um grande defeito: era senhor de um anticlericalismo primário. Alguns dos seus biógrafos dizem que se deve ao facto do seu pai ser um padre que nunca assumiu o filho. Daí, o seu azedume!
Ora, a maioria esmagadora da população portuguesa era católica e, por isso, o que aconteceu era previsível. Salazar era a “pérola” que os golpistas tinham como trunfo. Apareceu e ficou no “top” durante quatro décadas. Esta revolução, como todas as outras, foi feita por uma mescla de pessoas: visionários, manhosos, bem-intencionados, oportunistas, patriotas, gente malformada, líricos, carreiristas, sonhadores, vira-casacas e pessoas generosas. Havia de tudo!
Em junho de 1926, aconteceu uma grande alteração no poder local. os governadores civis foram substituídos por pessoas da confiança do novo poder. O mesmo aconteceu nos municípios, tendo sido nomeadas comissões administrativas. No caso concreto de Rio Maior, foi escolhido João Ferreira da Maia (1882-1958) que já tinha um longo percurso autárquico. Tinha sido Presidente da Comissão Administrativa Municipal entre 1912 e 1914. Fora, também, membro da Comissão Municipal Republicana e Administrador do Concelho.
Ferreira da Maia, na sessão de Câmara de 5 de julho de 1926, apresentou uma proposta de saudação ao Movimento de 2 de Maio, que foi aprovada. Por isso, foi enviado um telegrama ao Presidente do Ministério “saudando o triunfo da Revolução”.
João da Maia dirigiu o concelho de Rio Maior entre 1926 e 1937, tendo deixado uma boa imagem. Mesmo com poucos recursos realizou obras na área da eletrificação da vila, no abastecimento de água e na construção do jardim municipal. Segundo documentação por nós consultada, no período entre 1928 e 1953, as comparticipações realizadas no concelho de rio Maior, foram de 51,4% do valor das mesmas. A relação entre o chamado Estado Novo e o Concelho merece um estudo aprofundado. Ficará par uma próxima oportunidade.















