
Por João Maurício
Este texto tem a sua centralidade no município leiriense, mas aborda também, os concelhos limítrofes atingidos pela tempestade kristin: Marinha Grande, Porto de Mós, Batalha, Ourém e Pombal.
Falta de telhas: cinco nesta velha casa, dez na do vizinho … São muitas as residências com alguma madeira dos telhados à vista. As lonas mal alinhadas, lá estão. Sete meses passaram e a devastação continua presente. No rosto dos leirienses há fisionomias de dor. Tudo tem sido muito duro. Muitas árvores já lá não estão. O tema, nesta sociedade do barulho, deixou de ser assunto. E quando o vento volta a soprar, sente-se o coração apertado. As marcas materiais vão sendo reparadas, mas ficam as emocionais. Não há soluções fáceis para problemas complexos. A tempestade Kristin causou prejuízos de 160 milhões de euros, só na Marinha Grande. A autarquia recebeu apenas 3,9 milhões a título de adiantamento do Fundo de Emergência Municipal. Enfim, uma pressão violenta sobre as finanças municipais. Toda esta problemática coloca em cima da mesa uma verdade indesmentível: somos um país com poucos recursos, quer no campo do municipalismo, quer no governo central. Pensar de outra maneira, é meter a cabeça na areia!
Gente próxima desses autarcas, testemunharam o sofrimento, tristeza e desalento desses mesmos que se sentiram “de mãos atadas”. A sua vida transformou-se numa espécie de caminho cheio de encruzilhadas. O seu entusiasmo vai removendo, com dificuldade, um a um, os obstáculos que vão surgindo, mas alguns são intransponíveis. Toda essa montanha de problemas pôs de lado a cor política de cada um. Os meses foram difíceis, mas fica no ar o lado solidário de muita gente anónima que não aparece na comunicação social. As palavras neste caso são demasiado pequenas e frágeis para recordar a grandeza de tanta dor e desolação.
Muitos suspiraram por ajuda. Os melhores de nós acorreram às necessidades mais prementes, como o conserto de telhados de casas e infraestruturas. Reparações simples, mas indispensáveis. Verdadeiros “prontos-socorros”. Esses anónimos merecem rasgados elogios e gratidão de todos.
Os meteorologistas previam que o ciclone, vindo do mar, entrasse por uma área costeira entre Peniche e Figueira da Foz. Entrou pela Praia da Vieira. E se tivesse entrado pela Foz do Arelho? Nem é bom pensar nisso!
Aqueles locais ficaram irreconhecíveis. Os números apontam para 20 mil camiões de restos de madeira e resíduos de casas e terras devastadas. Árvores centenárias que “viram” passar gerações e gerações, tombaram em breves instantes como castelos de cartas. Alguns estragos vão levar anos a recuperar e vão ficar para sempre na memória coletiva, de quem presenciou e viveu esses momentos.
É o caso do Jardim Luís de Camões em Leiria que ficou irreconhecível. Um jardim de Infância desapareceu pura e simplesmente. O Terminal Rodoviário na Avenida Heróis de Angola parecia ter sido alvo de um bombardeamento. A mãe Natureza, por vezes amiga, foi bem amarga para a cidade do Lis. Foi uma noite de horror, em que todos se sentiram indefesos e vulneráveis. O que a Natureza nos disse foi que “tudo é efémero.
Abel acordou em sobressalto, de um sono profundo. Achou estranho aquele som., sem se aperceber do que seria. O vento forte apareceu de repente. Ficou pálido e com medo, muito medo. Era apocalítico aquele barulho! Abel tinha passado pela guerra da Guiné. Sabia o que era o som da “metralha” do P.A.I.G.C. Esteve várias vezes debaixo de fogo, mas nunca tivera tanto medo como naquela madrugada de 28 de janeiro, na véspera de fazer oitenta anos.
A idade dos tempos de África também era outra, mas naquela escuridão, Abel que era pouco católico, rezou à Senhora da Nazaré. Apeteceu-lhe chorar!
Tenho uma vida ligada a Leiria, desde 1960, já lá vão quase setenta anos. Quando lá fui fazer o exame o segundo ano, no velho Liceu Rodrigues Lobo, bem perto do rio, Leiria ainda tinha um ambiente com vestígios do romance de Eça de Queirós, “O Crime do Padre Amaro”. Era uma cidade retrógrada e mesquinha. Depois, veio a avalanche do progresso e a mudança de mentalidades.
Mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos dificuldades, Leiria irá “erguer-se das cinzas” e recuperar dos danos sofridos.















