
Por Joaquim Nazaré Gomes
Ouvimos ontem, na Assembleia da República, um representante do Partido Comunista Português recordar as perseguições, prisões e mortes sofridas por militantes comunistas antes do 25 de Abril. É justo reconhecer esse sofrimento. Nenhuma pessoa séria pode negar que Portugal viveu, durante décadas, sob uma ditadura de direita, onde a liberdade política era limitada, a censura existia e muitos portugueses foram perseguidos pelas suas ideias.
Mas a História não pode ser contada apenas pela metade que convém a cada partido. A verdade histórica exige memória completa, mesmo quando essa memória incomoda.
Depois do 25 de Abril de 1974, Portugal conquistou a esperança da liberdade. Porém, rapidamente se tornou evidente que algumas forças políticas não pretendiam apenas derrubar a ditadura anterior: pretendiam substituir uma ditadura por outra, de sinal contrário, inspirada no modelo marxista-leninista então dominante em países como a União Soviética e Cuba. Esse lado da História, o representante comunista preferiu não recordar.
Não recordou o clima de intimidação política que se viveu em vários momentos do Processo Revolucionário em Curso. Não recordou a influência crescente do PCP e de sectores da esquerda revolucionária sobre órgãos de comunicação social, sindicatos, comissões de trabalhadores, estruturas militares e sectores fundamentais do Estado. Também não recordou as ocupações de herdades, empresas e organismos ligados à lavoura, muitas vezes feitas sob pressão política e com grave prejuízo para proprietários, trabalhadores e para a própria economia nacional.
Em 1975, Portugal esteve perigosamente próximo de perder a liberdade que acabara de conquistar. O chamado Verão Quente mostrou bem que a democracia ainda não estava garantida. Havia quem quisesse eleições livres, pluralismo partidário e democracia parlamentar; mas havia também quem sonhasse com uma revolução permanente, dirigida por uma vanguarda ideológica, à semelhança dos regimes comunistas que, por esse mundo fora, tantas liberdades esmagaram.
Foi nesse contexto que os agricultores de Rio Maior tiveram um papel decisivo. A 13 de julho de 1975, recusaram a ocupação do seu Grémio da Lavoura e deram um sinal claro de resistência cívica contra a tentativa de imposição revolucionária no mundo rural. Esse episódio ficou ligado à reação de muitos portugueses que não aceitavam trocar a ditadura do Estado Novo por uma nova ditadura de esquerda.
Mais tarde, a 25 de novembro de 1975, os militares moderados travaram a deriva revolucionária e abriram caminho à consolidação da democracia representativa em Portugal. Esse dia marcou o fim do PREC e permitiu que o país seguisse o caminho das eleições livres, da Constituição democrática e do pluralismo político.
Por isso, quando se fala do 25 de Abril, deve falar-se também do que veio depois. Deve recordar-se a coragem dos que lutaram contra a ditadura antes de 1974, mas também a coragem dos que, depois de 1974, impediram que Portugal caísse numa nova forma de autoritarismo.
A liberdade não pertence a um partido. A democracia não é património exclusivo de nenhuma ideologia. Pertence aos portugueses que a defenderam: antes, durante e depois do 25 de Abril.
Sejamos, pois, sérios. Contemos a História na sua totalidade.
Os portugueses de hoje, sobretudo os mais jovens, merecem conhecer os factos sem omissões, sem propaganda e sem meias verdades.
Porque só um povo que conhece a sua História está verdadeiramente preparado para defender a sua liberdade.
É preciso reviver a História e não omiti-la.















