
A Polícia Judiciária deteve esta quarta-feira, 1 de julho, a médica Emuna Mia, residente em Santo Estevão, no concelho de Benavente, suspeita de receber dinheiro para acelerar e viabilizar pedidos de reforma por invalidez de trabalhadores à Segurança Social.
A detenção ocorreu no âmbito de uma investigação que se prolonga há vários meses, após a divulgação pública do caso em abril passado, através de uma reportagem televisiva da SIC. A profissional exercia funções numa unidade de saúde na margem sul do Tejo e acumulava consultas externas em serviços de medicina do trabalho. A PJ suspeita que a médica terá solicitado, em contrapartida, montantes próximos dos mil euros por cada processo favorável, num esquema que poderá abranger várias dezenas de requerentes.
Fonte policial adiantou que os valores eram pagos em numerário, na maioria dos casos, e que a articulação entre a médica e os intermediários era feita através de contactos telefónicos e encontros em locais públicos, evitando registos formais. A investigação terá começado por uma denúncia anónima, a que se seguiram escutas telefónicas e vigilâncias, que permitiram reunir indícios suficientes para o pedido de mandado de detenção ao Ministério Público. Os trabalhadores abrangidos pertenciam a uma empresa pública do setor dos transportes, mas as autoridades não descartam a possibilidade de haver outras vítimas ou beneficiários noutras entidades.
A Ordem dos Médicos, logo que tomou conhecimento dos factos pela comunicação social, instaurou um processo disciplinar, classificando as condutas descritas como “alegadas práticas gravemente lesivas da ética e da deontologia médica”. Em comunicado interno, a bastonária da Ordem afirmou que tais comportamentos, se provados, comprometem a confiança dos doentes e a dignidade da profissão, e que o inquérito prossegue com a maior celeridade, aguardando-se agora a comunicação oficial da Judiciária para eventual pedido de informações adicionais. A médica, entretanto, foi conduzida às instalações da PJ em Lisboa, onde prestará declarações ao juiz de instrução criminal.
Entretanto, fontes ligadas à Segurança Social referiram que alguns dos processos de reforma entretanto aprovados estão a ser reanalisados internamente. O sindicato que representa os trabalhadores do setor lamentou a situação, mas escusou-se a comentar casos individuais, preferindo aguardar o desfecho da investigação criminal antes de se pronunciar. Os montantes envolvidos, que poderão ascender a várias dezenas de milhares de euros, colocam a suspeita não só de corrupção ativa e passiva, mas também de burla qualificada e eventual falsificação de documentos clínicos.
















