
Por João Maurício
Há sessenta e poucos anos, ainda se viam passar os carros de bois enfeitados que, pelas estradas iam para a Feira das Cebolas de Rio Maior.
Na nossa região, havia uma série desses eventos, todos com forte componente rural, porque a vida era assim mesmo, simples e pobre. Rio Maior encaixava perfeitamente com o 15 de Agosto das Caldas da Rainha, com a Feira de S. Bernardo de Alcobaça e com as festas da Nazaré que anunciavam o outono que se aproximava. Todos tinham um tronco comum, mas cada uma com caraterísticas próprias. Era nessa altura que o povo anónimo via os seus ídolos das bicicletas.
As camisolas do Porto, Benfica e Sporting misturavam-se com as do Águias de Alpiarça, do Tavira, Sangalhos e Louletano.
Em 1958, oficializou-se o Circuito Ciclista de Rio Maior que passou a fazer parte do calendário da respetiva federação.
É assim. Sem darmos por isso, o tempo voa. Já passaram quase setenta anos. Havia ali uma policromia viva e alegre. Ali estavam os grandes nomes da velocipedia nacional, nomeadamente, Joaquim Agostinho, Alves Barbosa, Francisco Valada, Mário Silva, António Pisco e muitos outros.
O Circuito Ciclista de Rio Maior era uma referência no ciclismo português. Mário Silva foi o grande corredor que esteve nos Jogos Olímpicos de Roma e venceu a Volta a Portugal. Tinha um palmarés muito rico. Quando faleceu, o seu clube – o Futebol Clube do Porto – emitiu um comunicado onde se pode ler “Mário Pereira da Silva venceu o Circuito Ciclista de Rio Maior, em 1966”.
Era daqueles atletas que enganava: franzino, aparentemente frágil, mas muito combativo e com caraterísticas de líder, inteligente. Nascido em 1939, foi Campeão Nacional em Pista e Campeão Nacional de Estrada. Correu durante quatro anos na Vuelta à Espanha e, no Campeonato do Mundo de Estrada, venceu a Volta à Rodésia. Participou no Tour (França).
Também o grande Alves Barbosa venceu o Grande Circuito Ciclista de Rio Maior em 1959. Ganhou voltas a Portugal e brilhou na Volta à França. Um senhor. Foi o rei dos circuitos ciclistas, tendo vencido os de Santo Tirso, Lisboa, Malveira, Porto, Rio Maior, Figueira da Foz, Alenquer, Grandela, Famalicão e Vila da Feira.
Daqui se conclui que está por escrever a História do Circuito Ciclista de Rio Maior. Tive o privilégio de ter visto correr o lendário Alves Barbosa.
Mas a feira era muito mais que o ciclismo. A cestaria fabricada com vime que aí se vendia era famosa: os cestos, os poceiros e os cabazes. Alguns eram de vime com casca e ficavam cor de castanho escuro. Outros de vime sem casca e, por isso, mais brancos ou ligeiramente amarelados. Eram fruto de um trabalho longo que começava em janeiro.
Na Feira de Rio Maior, além disso, vendiam-se charruas, grades, as arrilhadas que eram as varas com que se picavam os bois, as enxadas rasas, os sachos e sacholas, as foices pequenas, as pás de madeira, os pulverizadores da Casa Hipólito. Compravam-se, também, redes para capoeiras, chocalhos para os animais e uma ou outra arca de madeira para usos variados, como para guardar o enxoval das moças casadoiras, para cereais e cómodas.
Até ao tempo da Primeira Guerra Mundial comprava-se um barrete geralmente preto, peça de vestuário na época muito generalizada. Nesse tempo, o cabelo dos lavradores era sempre “à escovinha”e outros usavam a barba “Suíça”. Os homens, nessa altura, procuravam nas tendas as jaquetas que, mais tarde, foram substituídas pelos casacos. As mulheres usavam lenços de algodão.
Nesses dias, Rio Maior era o ponto de encontro de pequenos agricultores do Oeste e Ribatejo. Eram as suas curtíssimas férias.
Dos concelhos vizinhos vinha muita gente comprar os barris para as vindimas que estavam à espreita. Os sapateiros da Benedita e os navalheiros (cutileiros de navalhas) faziam bons negócios, importantes para equilibrarem as suas contas.
Compravam-se, claro, as cebolas de Alvorninha e os melões que se penduravam nos sótãos das velhas casas e que se aguentava, até ao Natal. E lá estavam os vendedores de gravatas com os seus tabuleiros. Era, nessa altura, que se ia ao Circo e ver o Poço da Morte.
Não podiam faltar os ourives ambulantes com a sua mala verde de latão que circulavam sem medo de ladrões que, nesse tempo … nem vê-los! Havia à mistura, muitas barracas de “comes e bebes” e de roupas.
Rio Maior era o centro da vida rural regional. Havia latoaria, os potes de barro para o azeite, feitos no Juncal e as tradicionais quinquilharias.
A feira renovava-se todos os anos. Em tempos mais recuados, vendia-se muito gado. Na maioria esmagadora das casas rurais havia um burro que era usado como meio de transporte para se deslocarem até à feira.
A vida e a sociedade alteraram-se completamente. Faz falta, entre nós, um museu municipal que deveria ter um espaço alusivo à história da Feira das Cebolas ao longo dos tempos.
Seria muito bom que esse museu aparecesse, antes do desaparecimento dessa geração que viveu no tempo da antiga feira.
Doutro modo, todo esse passado, com todas as memórias, vai ser esquecido. Infelizmente!














