
A banda Rumo Certo, composta por João Cachado, Gabriel Tavares, Rodrigo Maurício e Rodrigo Santos, com raízes nos concelhos de Azambuja, Cartaxo e Sobral de Monte Agraço, alcançou no último domingo o 2.º lugar da edição 2026 do concurso musical The Voice Gerações. A vitória sorriu ao grupo alentejano En’Canta Modas, de Reguengos de Monsaras.
“Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.” As palavras eternas de Ricardo Reis parecem ter sido escritas à medida para a jornada de João Cachado, Gabriel Tavares, Rodrigo Maurício e Rodrigo Santos. No palco da vida e da música, os quatro jovens que compõem os Rumo Certo nunca foram por metades. Levaram consigo a inteireza, a dedicação e os valores do escutismo, transformando as noites frias de fogos de conselho na luz vibrante e imensa das grandes galas televisivas.
O caminho até à grande final do The Voice Gerações de 2026 foi uma escalada de cumplicidade e talento. Tudo começou com a irreverência de “Amigos Coloridos” nas Provas Cegas, que conquistou de imediato o mentor Mickael Carreira. Seguiu-se a força de “Amanhã” no Tira-Teimas e a sensibilidade arrebatadora de “O Meu Nome É Saudade” na Semifinal. Ao longo das semanas, formou-se à volta da banda uma impressionante onda de união regional. As gentes do Oeste e do Vale do Tejo mobilizaram-se num movimento avassalador de incentivo ao voto, transformando estes rapazes em verdadeiros embaixadores de uma comunidade orgulhosa.
Três dias antes da grande final, os rapazes quiseram voltar ao lugar onde tudo se moldou. O ensaio decisivo aconteceu nos Casais da Amendoeira, no aconchego da casa de um familiar de um dos membros da banda. Ali, naquele ambiente íntimo e familiar, serviu precisamente para recordar as origens e “voltar aos velhos tempos”, recarregando baterias com a simplicidade, o conforto e a verdade do início. Com essa energia pura, entraram no estúdio da RTP para a noite da consagração, que se abriu com a solenidade que o momento pedia. Coube aos Rumo Certo inaugurar o espetáculo com uma homenagem profunda e arrepiante a Luís Represas, o grande vulto da música portuguesa que partira recentemente, interpretando um dos seus icónicos temas com alma na poesia de Florbela Espanca. No estúdio e em milhares de lares, o tempo suspendeu-se. As vozes dos quatro jovens ergueram-se brilhantes, arrancando elogios unânimes e entusiásticos dos mentores e do público presente, garantindo a passagem direta à fase seguinte. No regresso ao palco para o derradeiro confronto, trouxeram de volta a canção que dera mote à sua primeira audição, num momento de pura partilha e catarse coletiva.
Ali mesmo, a poucos metros do palco, sentia-se o pulsar da região. A claque — uma força viva e ruidosa composta por carrinhas e corações vindos diretamente de Azambuja, Aveiras de Cima, Pontével e Sobral de Monte Agraço — vibrou entre lágrimas, aplausos e uma fé inabalável. O veredicto final ditou um honroso e justíssimo segundo lugar, superados apenas pelo talento alentejano dos En´Canta Modas, de Reguengos de Monsaraz. Mas a vitória dos Rumo Certo mediu-se noutra escala. Estão profundamente de parabéns pelo estrondoso êxito alcançado, vencendo na coragem, na genuína amizade que os une e na enorme onda de afeto nacional que geraram. Nas palavras orgulhosas do mentor Mickael Carreira, ficou a certeza absoluta de que aquele privilégio de trabalhar em equipa se traduzirá, muito em breve, na conquista de novos e imensos palcos por esse país fora.
Essa vitória moral já se faz sentir na terra que viu crescer Rodrigo Maurício e Rodrigo Santos. O Município de Sobral de Monte Agraço aprovou, por unanimidade, um louvor público direcionado aos quatro membros da banda. Embora João Cachado e Gabriel Tavares não sejam naturais do concelho, a autarquia fez questão de contemplar e homenagear o quarteto na sua totalidade, reconhecendo com orgulho o feito artístico conjunto e o exemplar trabalho comunitário que todos continuam a desempenhar através do Corpo Nacional de Escutas. É essa dedicação ao próximo que colhe os frutos mais bonitos: desde o vídeo carinhoso dos idosos do Lar de Aveiras de Cima a apelar ao voto, até ao gesto poético do pontevelense Mourão Rolho, que aos 88 anos fez questão de oferecer aos jovens uma letra original batizada de “Rumo Certo”.
A gratidão dos músicos transborda em cada palavra. Aquele ensaio a escassos dias da gala final relembrou-os de que este segundo lugar pertence a cada vizinho, amigo e apoiante que os amparou, a quem se deslocou ao estúdio para fazer ouvir a voz da região e a cada um que contribuiu com o seu voto através da chamada telefónica. Como escreveu o poeta António Gedeão, “eles não sabem que o sonho é uma constante da vida”. Os Rumo Certo sabem-no bem. O futuro começou agora. Com o compromisso da humildade e a garra de quem quer cantar para fazer os outros felizes, os rapazes já desenham os próximos voos: compor temas originais, gravar o primeiro álbum e mirar o horizonte onde os esperam os coliseus, a MEO Arena e a eternidade da música portuguesa. Eles encontraram o norte, e nós continuaremos cá para os ouvir, aplaudir e celebrar este sucesso merecido.














