
Por João Maurício
Já aqui referimos que a obra “A Cutelaria em Santa Catarina e Benedita – Séculos XX e XXI” é um trabalho profundo e com grande qualidade. Mais uma vez, os nossos parabéns ao seu autor, António Santos Real.
Não sendo uma prosa essencialmente histórica, é, no entanto, um estudo de grande valor técnico, fruto de uma enorme pesquisa. No livro, ficam registados para todo o sempre, muitos detalhes que se iriam perder, não fosse este trabalho louvável e precioso.
Com a devida vénia, deixamos aqui a foto de um “foiçado” que encontrámos na página 79. Reproduzimos a respetiva legenda: “O foiçado foi uma navalha muito popular entre os militares paraquedistas portugueses, logo em Maio de 1956, data da fundação do Corpo de Tropas Paraquedistas em Portugal. Foi adoptada como eventual recurso de emergência para cortar os cabos dos pára-quedas no caso de ficarem presos nas copas das árvores ou no telhado de um qualquer edifício, como sucedeu a 6 de junho de 1944, Dia D – Operação Overlord” na II Guerra Mundial (1939-1945), ou evitar, quando já em terra, de serem arrastados pela sua calote insuflada pelo vento”.
A referida navalha tem escrito no cabo “Paraquedistas” e na lâmina “ICEL – Indústria de Cutelarias da Estremadura, Limitada”, situada na Benedita.
Foi fabricada, manualmente, em 1956, faz agora setenta anos.
Este estudo percorre o mundo da cutelaria da nossa região. São centenas de fotos de navalhas de vários tipos que já não se fabricam. Destaco a “Cuchila” que “quando aberta, exibe um perfil elegantíssimo”. Foram produzidas pela ICEL nos anos cinquenta do século passado. Existe, também, a chamada navalha “Direita” que, enquanto fechada, “quase passa despercebida” e, ainda, a navalha de “enxertia”, usada nos trabalhos agrícolas, assim como, a navalha “Relvas”, uma homenagem à povoação com esse nome, na freguesia de Santa Catarina, no concelho das Caldas da Rainha.
Uma referência às, como diz o povo, “Ponta e Mola”, uma inexatidão linguística. O nome técnico é “Ponta na Mola”, ou seja, tinha um sistema de segurança que consistia num dispositivo de travamento da lâmina da navalha.
Existem, ainda, os canivetes multilâminas que têm a função de abre-latas, saca-rolhas, tira-cápsulas e, até, chave de fendas.
Na página 108, há uma anotação à marca A.J.I., já extinta, da vizinha Venda das Raparigas, do artesão navalheiro António José Inácio (1895-1970). Uma pequena oficina que nunca teve mais de 5 operários. Fazia facas, enxadas e ferraduras para equinos. A sua grande especialidade era a já referida “Ponta na Mola”.
A cutelaria, fruto do progresso está hoje robotizada e, por isso, perdeu o encanto de outros tempos. O “modus faciendi” dos artesãos navalheiros da nossa região era um verdadeiro património imaterial português. Noutros tempos, todos os homens tinham a “navalha de bolso” que usavam no dia a dia, como para cortar o pão. Longe vão esses tempos.














