

Por João Maurício
Conheci Fernando Ruas, ex-Presidente da Câmara Municipal de Viseu, há cinquenta e quatro anos durante o serviço militar. Era um alferes discreto, calado, “certinho”, dava a impressão que gostava de passar despercebido. Esteve dois anos naquele quartel e, por isso, a quem estivesse atento, dava para perceber que era assertivo. Estávamos perante um beirão: austero, humilde, correto, inteligente e determinado.
Foi presidente da Câmara visiense durante 28 anos. Usando uma linguagem popular, é obra! Presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses durante 11 anos, Deputado no Parlamento Europeu e na Assembleia da República. Condecorado pelos governos francês e polaco. Chegou aí com mérito das pessoas simples. Fico sempre contente, quando estas pessoas sobem na vida.
Ruas “nasceu” para ser autarca. Deixou uma obra gigante no seu concelho. Recentemente perdeu a eleição autárquica por muito pouco – 1,4%. Uma derrota é sempre isso mesmo! Uma derrota! Não há outra forma de o dizer. Por um voto se ganha e por um voto se perde.
Fernando Ruas merecia ter outro fim político. A história está cheia de exemplos de líderes carismáticos que estiveram no top do poder e depois foram completamente esquecidos. Não será o caso, mas a Democracia é assim: às vezes os menos bons ganham e os melhores perdem, mas “o povo é soberano”. É quem manda.
Viseu deve muito a Ruas, tornou-a uma cidade viva, moderna e futurista, talvez a melhor do interior. Tem, sem dúvida, um lugar na história daquele município, mas o seu tempo de líder local passou. Em política, às vezes, o que hoje é verdade amanhã é mentira e as suas figuras vão sendo substituídas. Neste mundo, tudo é passageiro e a memória dos homens é curta. Hoje, está-se no pedestal, amanhã no anonimato. Esta derrota, pelo menos para parte do eleitorado, não terá sido uma novidade. Havia, já, em algumas franjas daquela sociedade, alguma saturação e vontade de mudar. Houve mesmo um cidadão anónimo, ex-apoiante do social-democrata, que afirmou que Ruas estava a perder o dinamismo. Ninguém, aos setenta e muitos anos, tem a vivacidade dos quarenta. O tempo nunca anda para a retaguarda.
Sábias foram as palavras de José Saramago, escritas há muito, muito tempo- “o que as vitórias têm de mau é que não são definitivas”.
Um apaniguado de Ruas escreveu que “terminou uma fase da vida do autarca e outras portas se abrirão”. Se calhar, é muito difícil, já que o ex-presidente fará, daqui a uns meses, 77 anos.
Afinal, tudo termina. Exemplo disso, é também o caso de Torres Vedras onde, ao fim de cinquenta anos, os socialistas perderam a respetiva câmara.
Tendo presente as devidas distâncias e a importância de cada caso, deixo aqui dois exemplos de que tudo é transitório. Lembro-me sempre do Marquês de Pombal, um homem todo poderoso, que foi uma das maiores figuras da História de Portugal. Acabou os seus dias abandonado. Passou a ser um homem só! Napoleão dominou quase toda a Europa e acabou tristemente com um fim decadente na minúscula ilha de Santa Helena. Como disse, um dia, o historiador José Hermano Saraiva, “todos temos pés de barro”.
Num concelho do Oeste, existiu um grande autarca que morreu precocemente. Um vereador da sua equipa, recentemente em conversa que tivemos, lamentou que o ex-presidente, que faleceu há uma dúzia de anos, esteja completamente esquecido. Onde estão os seus antigos apaniguados? E o vereador, sabendo que colaboro regularmente, num jornal do concelho, apelou a que eu escrevesse sobre o referido autarca, que já partiu.
Este fenómeno acentua-se ainda mais no tipo de sociedade em que vivemos, onde o dia de ontem é sinónimo de um passado longínquo. Segundo os conceitos ditos modernos, em política tudo é passageiro e fugaz. Diz o povo ”rei morto, rei posto”. O que se passou em Viseu e noutros municípios, merece uma análise mais profunda. Dizem alguns analistas que a sociedade viseense foi mudando sem que muitos dessem por isso. Os anos passaram e os mais velhos foram partindo, sendo substituídos pelas novas gerações que pensam de modo diferente. São os sinais dos tempos. Como dizia um antigo líder africano, com a sabedoria própria daquelas paragens “ninguém consegue parar o vento com as mãos”.
De facto, estamos num tempo em que os tempos são outros.














