
Por João Maurício
O Correio da Manhã, numa das suas edições do mês de março, não sei precisar o dia, publicou uma breve notícia que passamos a transcrever: “P. Mós – A Junta de Freguesia de Porto de Mós comprou 1500 rádios para distribuir à população, ideia que surgiu com o apagão”.
Os arautos da desgraça sempre existiram ao longo dos tempos. Eu era um miúdo, quando apareceu a televisão em Portugal. Logo apareceram os iluminados, afirmando que seria o fim da rádio. Mas, afinal, tal não aconteceu. Nos anos sessenta do século passado, eram muitos os que ouviam as rádios clandestinas. Através da Rádio Portugal Livre íamos sabendo do que se passava por cá. A Emissora Nacional era a voz da ditadura e, por isso, omitia a verdade. A solução para os mais famintos da verdade era procurarem outras fontes. Aqui e ali, por esse país fora, alguns postos emissores, embora “apertados”, iam dando alguma informação regional. Era o que acontecia com a Rádio Ribatejo que transmitia de Santarém e cujos estúdios se situavam para os lados das Portas do Sol.
Conseguíamos ouvir, também, a Rádio Universidade a partir de Lisboa e Coimbra. Foi uma verdadeira escola, onde se formaram muitos e bons profissionais do setor.
Existiu um tempo em que ouvíamos a rádio independente B.B.C.
Ficaram famosos alguns programas nas rádios portuguesas como: Os Parodiantes de Lisboa, Em Órbita, de Cândido Mota e “A Noite é Nossa” com a voz inconfundível de Rui Castelar.
Os relatos de futebol eram especiais, quando se ouviam as vozes de Artur Agostinho e do nortenho Nuno Brás.
Sem a rádio seria muito mais difícil ter acontecido o 25 de Abril.
Vivemos numa época em que emerge muita mediocridade das redes sociais, onde a deturpação da verdade é mais do que muita. Ao invés, a rádio, nomeadamente nas zonas mais rurais tem um papel fundamental no mundo da comunicação. A sua importância veio “ao de cima”, por altura do apagão.
Um simples rádio a pilhas colocou-nos em contacto com o mundo. Esse facto veio recordar-nos como as emissoras grandes ou pequenas são fontes valiosas de entretenimento.
Enganem-se os que pensavam que este meio de comunicação ia ser esquecido com o avanço da tecnologia. A própria internet funcionou a seu favor.
Tudo isto, porque a rádio foi construindo, ao longo de décadas, uma reputação de credibilidade e com uma enorme capacidade de informar em tempo real. Aproveitando a liberdade conquistada com o 25 de Abril, surgiram as chamadas “rádios piratas”. Conheci o fenómeno por dentro, porque estive envolvido na legalização da “Rádio Voz da Benedita”, que mais tarde se passou a chamar “Benedita F.M.” Nessa época, apareceu a T.S.F. que foi uma verdadeira escola do jornalismo radiofónico.
Agora, mais uma vez, vão aparecendo os “profetas da desgraça” que de forma apocalítica anunciam o fim da rádio devido ao fenómeno “Inteligência Artificial”. Estão enganados. A rádio está em renovação constante, sempre teve a capacidade de renascer e irá renovar-se. Assim esperamos!
Hoje, existem emissoras temáticas, algumas das quais só se conseguem ouvir na zona a que se convencionou chamar de “Grande Lisboa”.
A R.D.P. e a Renascença são símbolos de qualidade. E já agora, faço aqui uma referência especial à jovem “Rádio Observador”, que tem um conjunto de programas onde a questão da independência está bem viva e respeitada. Esta emissora do Bairro de Alvalade trouxe uma lufada de ar fresco ao setor.
A rádio tem futuro! Está em vantagem em relação a outros meios de comunicação. Alguns canais televisivos banalizaram-se em demasia: são repetitivos, procuram escândalos, tragédias e elevam a um patamar bem alto o negativismo. É o caso de alguns debates desportivos onde, às vezes, são uma mescla de falta de educação, populismo e sectarismo. Aí, o falar mais alto e em tom agressivo, é sinónimo de primarismo, mediocridade. Na generalidade, as emissoras vão impondo o bom senso e a serenidade.
Porto de Mós, uma terra de que gosto muito e onde vivi três anos, veio dar o exemplo. Daqui vai um cumprimento para a respetiva Junta de Freguesia por ter comprado e distribuído à população 1500 transistores. Dinheiro bem gasto!















