Por João Maurício
A História não é uma ciência fechada, mas uma área de conhecimento em constante transformação e atualização, aberta a descobertas de novos factos e a novas fontes documentais.
O PREC é um período histórico mal estudado, fundamentalmente no contexto da nossa região. O conceituado jornalista Rui Cardoso acaba de publicar a obra “Breve História do PREC”.
Para os mais novos, menos conhecedores desta matéria direi que o PREC significa “Processo Revolucionário em Curso”. O autor deste interessante texto, na contracapa do livro, diz-nos que “na espiral revolucionária de 1974 e 1975, Portugal parece um manicómio em autogestão, mas, pelo menos transitoriamente, foi o povo que fez a História”. Em análise, estão as duas visões da sociedade portuguesa: a democrática e a revolucionária.
Sendo uma Breve História, Rui Cardoso não foi mais longe e, por isso, as referências a Rio Maior são esporádicas. Este foi um tempo de grandes transformações em várias vertentes: da política à economia, passando pelo lado social.
Ler este livro foi reviver uma sucessão de acontecimentos alucinantes. A ditadura, velha de quase um século, caiu como um castelo de cartas em menos de 24 horas. Foi um tempo complexo. Pela leitura do livro ficamos com a ideia de que a imagem de um país partido em dois, mas essa é uma análise simplista e pouco rigorosa.
O 25 de novembro, diz-nos Rui Cardoso foi um dia “em que a revolução travou a fundo” e foram abertas as portas a uma nova fase da vida coletiva portuguesa, menos “efervescente” e que representou um corte completo com “o passado revolucionário”.
Este texto remete-nos para um outro livro “Quando Portugal Ardeu – História e Segredos da Violência Política no pós 25 de Abril” do jornalista Miguel Carvalho, editado em 2017. Aí, sim, fala-se muito de Rio Maior. A “Breve História do PREC” de Rui Cardoso, é um bom livro que procura ser independente na leitura que fez dos factos acontecidos. E essa análise só é possível, porque já passaram muitos anos e, como diz o povo, o tempo cura tudo, até as chagas que estavam abertas, se foram fechando.
O tempo é amigo do estudo da História: ajuda-nos a compreender o decorrer dos factos, limam-se arestas. E é assim que deve ser.
Muitas pessoas envolvidas nos dois lados da barricada já desapareceram e levaram consigo alguns segredos. Pena é que os mais novos estejam a leste desta e de outras problemáticas, talvez fruto dos programas escolares do ensino da História estarem algo ultrapassados. Houve de tudo: prisões ilegais, boicotes violentos a reuniões partidárias, sabotagem económica, assaltos a sedes de partidos, redes bombistas.
A História é assim: tortuosa nos seus caminhos. Mas tudo passou e a Democracia acabou por vencer.
Nota final – este tema leva-nos, ainda, a outra obra “No Tempo de Soares, Cunhal e Outros – O PREC também passou por Alcobaça”, de Fleming de Oliveira (2010). Este livro é uma tentativa, quanto a nós, pouco conseguida, para compreendermos os detalhes do PREC na nossa região.
No capítulo X, (pág. 158 a 168), o autor refere vários aspetos da agitação acontecida em Rio Maior. No capítulo XIII, refere-se ao PREC na Benedita. Lamentamos dizer que há, neste último capítulo, falta de rigor – e até de verdade histórica. Alguns depoimentos são genéricos e pouco independentes. Foram cerca de cem pessoas e entidades que forneceram informações. A listagem encontra-se na página três do livro. Estranho é o facto de nessa listagem não se encontrar ninguém de Rio Maior.
Infelizmente, o Dr. Fleming já cá não está para contestar a minha opinião. Mesmo assim, mantenho a ideia de que o livro em causa foi uma oportunidade perdida para fazer a história do PREC em Rio Maior e na Benedita.

















