
Por João Maurício
“Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem anos” é um livro da autoria de José Maria Silva, crítico literário do jornal Expresso.
A obra teve a primeira edição em 2017, a segunda em 2023 e a primeira reimpressão em outubro de 2025.
A verdade é que só agora soube da existência deste livro. O autor escolheu os cem melhores poemas, publicados na área temporal de um século. Trata-se de uma pesquisa de largos milhares de poemas escritos por autores portugueses entre 1917 e 2017. Alguns de poetas menos conhecidos figuram ao lado de outros de alto vulto da nossa literatura como Manuel Alegre, Fernando Pessoa, Ruy Belo, Teixeira de Pascoais, Eugénio de Andrade, Camilo Pessanha, Ramos Rosa, Natália Correia, Vitorino Nemésio, entre outros. Ruy Belo é um poeta grandioso, mas a sua poesia é difícil, porque profunda e introspetiva. O seu pensamento tem muito de “filósofo”.
Estamos perante um grande pensador. As terras de Rio Maior marcaram a sua infância e, em certa medida, moldaram o seu carácter. O poeta tem uma visão muito própria da terra onde nasceu. Os seus versos retratam-nos um tempo longínquo, de uma realidade social bem diferente da dos nossos dias. Diferente, não é só o espaço temporal, mas, também as pessoas são de outra geração. Isto no que se refere a S. João da Ribeira, a sua terra natal.
Ruy Belo revela-se um homem muito atento aos detalhes do dia a dia, das vivências de uma ruralidade profunda que invadiu a sua infância. Recordo-me de um dos seus poemas, onde faz referência ao facto do pai vir à Feira das Cebolas de carroça. Saiu cedo da sua aldeia natal à procura do mundo novo, mas a mesma nunca saiu de si. O poeta deixou-nos um retrato de quadros sociais do quotidiano, como o ferrador que ia de Almoster às quartas feiras, a dona da farmácia, do Liovigildo, do barbeiro Marcelino e do Marcolino. Recorda-nos os olivais e o som do búzio que chamavam o “rancho” para a apanha da azeitona e, ainda, a escola primária onde andou, a Igreja, os plátanos e a taberna.
Chegou a altura de transcrever o poema de Ruy Belo, escolhido para a seleção e organização de José Maria Silva “Oh as casas as casas as casas”.
OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS
“Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas”
RUY BELO
É sempre difícil “adivinhar” o pensamento dos poetas. Neste caso concreto, perece-nos que há nestes intensos e originais versos uma grande nostalgia. Haverá aqui, eventualmente, a recordação da casa onde viveu na infância. Maior verdade não há do aquela que os versos “elas morrem não só ao ser demolidas / elas morrem com a morte das pessoas”, nos transmitem.
O ano de 1978 foi trágico para a Literatura Portuguesa. Nesse ano, desapareceram três grandes escritores: Jorge de Sena, Vitorino Nemésio e Ruy Belo. Deste último, escreveu um dia Luís Adriano Carlos, professor da Universidade do Porto: “génio sublime na poesia portuguesa contemporânea”.
Ruy Belo, na sua poesia, aborda temas vários como a gastronomia. Veja-se o seu poema “ Um prato de sopa”: «Um prato de sopa um humilde prato de sopa/ comovo-me ao vê-lo no dia de festa/ e então entro dentro da sopa/ e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos». O poeta usa a sopa como símbolo de conforto, mas também realça a sua melancolia. Uma das suas qualidades era encontrar poesia nas coisas simples do quotidiano.
Não sendo muito presente, a gastronomia aparece aqui e ali na obra de Ruy Belo.
No poema “Quero isso nem isso quero”, o poeta diz-nos “Quero uma mesa e pão sobre essa mesa / Na toalha de linho nódoas de vinho” … “Quero … tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas” … “Quero ir ao vale barco a malaqueijo à marmeleira roubar melões”. Também no poema “A beringela” descreve “um fruto esférico na forma e agradável de sabor”.
Ruy Belo usa uma métrica muito própria, os seus versos têm uma musicalidade diferente, a pontuação é sui generis e usa muitas vezes minúsculas, por exemplo, nos nomes das terras.
São essas caraterísticas que fazem dele um poeta diferente e esse aspeto é muito valorizado pelos estudiosos da Poesia Portuguesa onde Ruy Belo está entre os melhores.















