
Por Lusa
Quatro atletas paralímpicos portugueses que já conquistaram medalhas para Portugal em competições internacionais reconheceram e elogiaram ontem, em Rio Maior, a evolução das condições criadas para o alto rendimento.
Convidados a falar dos seus percursos no Fórum Europeu da ASPC – Association of Sport Performance Centres (Associação de Centros de Alto Rendimento), que termina hoje em Rio Maior, Carla Oliveira, David Grachat e Norberto Mourão manifestaram satisfação por atletas mais novos, como o nadador Diogo Cancela – bronze em Paris2024 e também presente em Rio Maior -, terem outras condições para se prepararem.
“Sou do tempo em que quase pagava para ir a estágios e para competir [por Portugal]. Já não é a realidade de hoje. Compensa muito hoje em dia ser atleta. Ganho mais enquanto atleta do que enquanto profissional”, revelou Carla Oliveira, que já conquistou pela seleção nacional medalhas de ouro, prata e bronze em Europeus e Taças do Mundo de boccia.
A atelta paralímpica, que se desloca em cadeira de rodas devido a uma doença neuromuscular rara, diz que quando fala do que passou com os seus colegas atletas mais novos, “eles não entendem” do que fala, o que a deixa “mais tranquila” quanto ao trabalho que está a ser feito: “Sinto que os nossos atletas têm cada vez mais condições. Foi um caminho muito moroso”.
Essa mudança de atitude perante o desporto adaptado permitiu também ao paracanoísta Norberto Mourão, que perdeu as pernas num acidente, ganhar para Portugal medalhas de ouro em Europeus, prata e bronze em Mundiais e um bronze nos Jogos de Tóquio2020.
“Numa altura em que o clube que representava acabou as modalidades, teve de se criar uma solução”, que o levou a ir viver para a residência do Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho.
Mourão “treinava lá toda a semana e regressava a casa ao fim de semana”, fazendo muitos quilómetros entre aquele concelho do distrito de Coimbra e a residência, primeiro Lisboa e depois Vila Real, entre 2017 e 2022.
Essa mudança de vida e o investimento na preparação “fez toda a diferença”, reconhece, porque a sua “evolução foi tão grande que fez com que ambicionasse novas oportunidades e alimentou a perspetiva de ir aos Jogos Paralímpicos”.
Entre os momentos difíceis por que passaram, o nadador David Grachat recordou, emocionado, um em particular: “Nunca pensei no pós-carreira. Estudei, tentei conciliar os estudos com o treino, mas deparei-me com uma realidade muito dura quando deixei de competir”, contou em Rio Maior.
Durante a pandemia de covid-19, quando já trabalhava, “a recibos verdes”, ficou sem emprego. Bateu a várias portas e todas se fecharam.
“A transição da carreira desportiva para o mercado de trabalho foi dura. É um passo que ainda me assombra e ainda não fiz completamente este luto”, disse, de voz embargada, o antigo nadador, que hoje trabalha como técnico especialista no gabinete da Secretaria de Estado do Desporto.
Em comum, todos lamentam a falta de reconhecimento e visibilidade, sobretudo nos meios de comunicação social.
“Temos os mesmos resultados que um atleta normal, mas temos toda a história por trás, de superação. As pessoas também gostam de ver isto, de sentir um bocadinho pena para se sentirem bem. O ser humano é mesmo assim”, afirmou Diogo Cancela, tentando “seduzir” os jornalistas presentes para acompanharem mais o desporto adaptado.
Carla Oliveira pediu para não olharem para os atletas “nem como coitadinhos, nem como super-heróis”.
“Queremos ser vistos como atletas que treinam que trabalham. Sou bicampeã da Europa e poucas notícias existiram sobre isso. Eu sou mais do que uma cadeira de rodas”, sublinhou.














