
Por João Maurício
Esta breve crónica está a ser escrita, algures numa praia oestina, onde, ao largo, bem longe, à noite, por vezes se vê o pisca-pisca do farol das Berlengas.
Hoje, 9 de julho, não veio visitar-nos o doce pôr do sol com aquela cor de fogo única que nos faz sonhar.
Todos os dias, um bando de pardais, muitos, centenas, poisam numa depenada sebe de cedros, aqui mesmo em frente onde me encontro. Fazem um chilreio enternecedor, melancólico, para chamarem a nossa atenção. Hoje vieram mais tarde, demoram-se menos tempo no seu palavreado por ter sido um dia cinzento, como muito pouco sol. Desapareceram, foram à sua vida, ainda a noite não tinha chegado. Foi uma tarde triste, como a prosa que aqui deixo.
Não sei, ninguém sabe, como vai acabar esta questão da correção das provas dos exames nacionais.
Sou do tempo em que roubaram os testes do antigo 5º ano dos liceus. Já passaram tantos anos, por isso perdi os detalhes, creio que foi no Algarve. A ditadura salazarista “abafou” o caso, mas hoje, é impossível seguir por esse caminho.
Fernando Alexandre era uma espécie de estrela deste governo, pelas suas qualidades, pessoa sensata e profunda intelectualmente. Infelizmente, esqueceu-se de olear a máquina. Acontece até aos inteligentes, como é o caso. Não sei se será uma estrela cadente, mas a sua imagem sai chamuscada. Dizem que foi imprudente. O certo é que o teste piloto sobre a digitalização no ano passado foi um desastre. Eu diria que deveria ter sido mais cauteloso.
O jornalista Filipe Luís, com raízes na nossa região, é considerado moderado. Mesmo assim, diz que este processo é uma “barraca”. Fala-se de testes com folhas em branco, exames que desapareceram, outros com folhas descontinuadas, de exames diferentes, como sendo do mesmo aluno. Isso até é fácil perceber pela caligrafia que difere de folha para folha, As “más línguas” dizem que havia no ME estruturas para fiscalizarem a correção de anomalias, mas essas mesmas foram desmanteladas. Houve professores que receberam provas para corrigir, de disciplinas que nunca lecionaram.
Há quem já chame a este processo “carnaval digital”. Há, sem dúvida, muito amadorismo.
A questão é muito mais profunda. O digital, em muitos casos, agudiza a incompetência para a escrita e anula o sentido crítico dos alunos. Mas o importante para alguns ditos especialistas em doutrinação digital é seguir em frente a toda a velocidade! Mas assim, não vão longe!
Tenho pena de ver Fernando Alexandre a ser arrastado para esta polémica. Achei-o sempre um visionário, mas algo ingénuo, o que em política é um pecado e não uma virtude.
A verdade é que a vida é assim. Entre o céu e o inferno vai um pequeno passo. A política está cheia destes e doutros paradoxos, desde sempre!
Muitas vezes, os mais competentes ficam pelo caminho. Esperemos que não seja o caso. Ninguém pára o vento com as mãos e o futuro passa pelo online e pelo digital. A verdade é que estes assuntos devem ser tratados com rigor e não de forma artesanal, como parece ter acontecido.
O “deixa andar” está no auge e não devia estar. Está em jogo e em risco o futuro de muitos jovens.
Durante muitas décadas, a máquina dos exames funcionou bem. Será prudente alterar o que funciona bem?
Fernando Alexandre é um bom orador, mas a sua oratória não convenceu, porque não tem lógica. Não encaixou no país real.
Logo após o 25 de Abril, o meu médico na altura foi convidado para presidente da Comissão Administrativa dum concelho nosso vizinho. Disse-me um dia que não aceitou, porque entre as suas qualidades não estava, de certo, a capacidade de encaixar as críticas injustas.
Fernando Alexandre, paradoxalmente, revelou dificuldade em entender as críticas, quase todas justas!
Levar-nos-ia muito longe esta crónica, até pelo facto de se terem cometido muitos erros ao longo dos tempos, na política educativa.
Terminamos com as palavras de uma mãe amargurada (Expresso, 10 de julho, página 7: “Não se fazem experiências, quando está em causa o acesso à Universidade”.















