
Por João Maurício
II
O Mosteiro de Alcobaça chegou a ter mais de noventa propriedades em Rio Maior, algumas das quais foram doações. Foi o caso de D. Urraca Fernandes, Domingos Brito e Martim Soares Trovador, só para citar estes três exemplos. Essas propriedades eram, também, casas, fornos, moinhos, vinhas e outras.
Na Idade Média, a infertilidade masculina e feminina era elevada. Por isso, muitos casais não tinham filhos e daí a doação de bens às Ordens Religiosas. A contra-partida era a celebração de missas por longos períodos, após a morte dos doadores, por alma dos mesmos. Isso explica a quantidade de propriedades que os frades cistercienses tinham na sua posse, em Rio Maior. Havia, até, alguma disputa nessa área entre as ordens religiosas.
O riomaiorense Fernando Duarte, estudioso deste concelho, escreveu que há, aqui, “qualquer coisa arrancada aos frades bonacheirões” e que a ligação entre Alcobaça e Rio Maior é muito antiga.
Luís Filipe Oliveira, professor da Universidade do Algarve, diz-nos que o desaparecimento da aristocracia riomaiorense, associado ao nivelamento progressivo dos restantes moradores, teve a ver com a extinção das corveias (trabalho duro ou serviço que o servo devia prestar ao senhor feudal, para podar ou vindimar) então exigidas pelo Mosteiro de Alcobaça. De referir, ainda, a influência de Cister presente na toponímia desta região. Por exemplo, quem passar na estrada nacional 114 (Rio Maior-Santarém), perto de São João da Ribeira, encontra uma placa com o nome “Moinho D’Ordem”. Aí, existia um moinho movido a água, pertencente à Ordem de Cister.

No livro “Marinhas de Sal de Rio Maior”, da autoria de Georgette Goucha, Calado da Maia e de Fernando Duarte, de 1977, refere-se que os frades da Ordem de Cister chegaram a controlar o comércio local do sal.
Um outro livro “Alcobertas – a Serra e o Vale”, editado em 2000 pelo Agrupamento de Escolas da Freguesia de Alcobertas, refere, também, na página 13, que aquela zona “fazia parte das terras pertencentes ao Mosteiro de Alcobaça”, facto que requer um estudo mais sustentado.
Notas finais – nem sempre, alguns frades foram corretos. Existiram casos de falsificação de documentos que levaram a que os frades se tivessem apropriado de terrenos que não lhes haviam sido doados. São contas de “outro rosário”. Esse facto causava muito mal estar entre a população. Se a isso acrescentarmos os impostos elevadíssimos que o Mosteiro de Alcobaça cobrava aos arrendatários, fácil é perceber que esse procedimento era alvo de contestação.
Por isso, já nos primeiros anos do liberalismo na freguesia da Benedita, aconteceu grande agitação popular. O Padre Fialho, pároco local, encabeçou essa contestação. Pagou caro por isso. Teve de se exilar no Brasil para não ser perseguido. Aí faleceu.
Resumindo – a ordem de Cister teve um papel importante no desenvolvimento social, económico, religioso e agrícola da nossa região. Mas dizer que tudo foi perfeito é “enterrar a cabeça na areia”.
Continua
















