Comparar guarda-redes de épocas diferentes nunca é simples. Ricardo Zamora jogou num futebol completamente diferente daquele que Manuel Neuer encontrou quase um século depois. As regras mudaram, as bolas mudaram, os relvados melhoraram e, sobretudo, aquilo que se exige a um guarda-redes tornou-se muito mais complexo.
Ainda assim, há nomes que atravessam gerações.
Neste ranking dos 12 melhores guarda-redes do mundo e da história do futebol, preparado com o contributo dos analistas desportivos da Twin Portugal, analisámos não apenas títulos e números, mas também a importância de cada jogador na sua época, a capacidade de decidir grandes jogos e a influência que deixou na evolução da posição.
Se for necessário escolher apenas um nome para o primeiro lugar, a nossa opção é clara: Lev Yashin. O guarda-redes soviético continua a ocupar um espaço único na história do futebol.
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Como escolhemos os melhores guarda-redes da história?
Não existe uma fórmula matemática capaz de dizer que um guarda-redes dos anos 1930 foi melhor ou pior do que outro que joga num futebol moderno muito mais rápido e organizado.
Por isso, o ranking considera cinco fatores principais:
– nível atingido no auge da carreira;
– regularidade e longevidade;
– desempenho em grandes jogos e competições;
– títulos e reconhecimento individual;
– influência na evolução da posição de guarda-redes.
As estatísticas também ajudam, mas precisam de contexto. Um ranking de guarda-redes com mais penáltis defendidos na história, por exemplo, mede uma capacidade específica. Não significa necessariamente que quem defendeu mais penáltis tenha sido um guarda-redes mais completo.
É precisamente por isso que qualquer lista deste género será sempre discutível. E talvez seja essa uma das partes mais interessantes do debate.
Ranking dos 12 melhores guarda-redes do mundo
| Posição | Guarda-redes | Seleção | Principal marca na história |
| 1 | Lev Yashin | União Soviética | Único guarda-redes vencedor da Bola de Ouro |
| 2 | Gianluigi Buffon | Itália | Longevidade, consistência e campeão mundial |
| 3 | Iker Casillas | Espanha | Capitão de uma geração histórica da Espanha |
| 4 | Gordon Banks | Inglaterra | Campeão mundial e autor de uma defesa lendária a Pelé |
| 5 | Peter Schmeichel | Dinamarca | Liderança, presença física e campeão europeu |
| 6 | Dino Zoff | Itália | Campeão mundial aos 40 anos |
| 7 | Sepp Maier | Alemanha Ocidental | Referência do Bayern e campeão mundial |
| 8 | Peter Shilton | Inglaterra | Longevidade e recorde de internacionalizações |
| 9 | Ricardo Zamora | Espanha | Um dos primeiros grandes ícones da posição |
| 10 | František Plánička | Checoslováquia | Capitão e finalista do Mundial de 1934 |
| 11 | Thibaut Courtois | Bélgica | Decisivo nos maiores palcos do futebol moderno |
| 12 | Manuel Neuer | Alemanha | Revolucionou o conceito de guarda-redes moderno |
1. Lev Yashin
Há grandes guarda-redes e depois há figuras que mudam a forma como uma posição é entendida. Lev Yashin pertence ao segundo grupo.
Conhecido como a “Aranha Negra”, o soviético jogou toda a carreira de clubes no Dynamo Moscovo e tornou-se uma referência muito além das fronteiras da antiga União Soviética.
Yashin não se limitava a esperar pelo remate sobre a linha de baliza. Comunicava constantemente com os defesas, atacava cruzamentos, saía da área quando necessário e assumia um papel de liderança que hoje parece normal, mas que na sua época estava longe de ser habitual.
O feito que melhor resume a sua dimensão aconteceu em 1963: tornou-se o primeiro e, até hoje, único guarda-redes a vencer a Bola de Ouro.
Mais do que os troféus, é essa influência que o coloca no primeiro lugar. Muitos guarda-redes posteriores aperfeiçoaram conceitos que Yashin já começava a explorar décadas antes.
2. Gianluigi Buffon
Se Yashin representa a revolução, Gianluigi Buffon representa a consistência.
Poucos jogadores, em qualquer posição, conseguiram permanecer tanto tempo entre a elite mundial. Buffon estreou-se muito jovem no Parma e continuou a competir ao mais alto nível durante décadas, tornando-se principalmente associado à Juventus e à seleção italiana.
A sua grande qualidade talvez fosse tornar o difícil aparentemente simples. Não precisava de procurar defesas espetaculares em todas as jogadas porque o posicionamento lhe permitia estar muitas vezes no lugar certo antes do remate.
No Mundial de 2006, foi uma das figuras da Itália campeã e recebeu o prémio destinado ao melhor guarda-redes da competição.
Buffon reuniu quase tudo aquilo que se procura num número um: técnica, personalidade, leitura de jogo, capacidade física e uma extraordinária regularidade.
3. Iker Casillas
Iker Casillas nunca teve a imponência física de Schmeichel ou Courtois. Não precisava.
A sua maior arma estava na velocidade com que reagia.
Durante os melhores anos da carreira, Casillas foi extraordinário em remates efetuados a curta distância e em situações de um contra um. Quando um avançado parecia já ter ultrapassado a defesa, o espanhol encontrava frequentemente uma maneira de manter a bola fora da baliza.
No Real Madrid conquistou três Ligas dos Campeões. Pela seleção espanhola tornou-se capitão da equipa que venceu dois Campeonatos da Europa e o primeiro Mundial da história de Espanha.
Nesse Mundial, Casillas recebeu ainda a Luva de Ouro de melhor guarda-redes do torneio.
Os adeptos do FC Porto também tiveram oportunidade de acompanhar os últimos anos da sua carreira. Mesmo já longe do período de maior explosividade física, a experiência e a leitura do jogo continuavam visíveis.
4. Gordon Banks
Alguns guarda-redes ficam associados a um campeonato. Gordon Banks ficou associado a uma defesa.
No Mundial de 1970, Pelé cabeceou a bola contra o relvado e em direção ao canto da baliza inglesa. O brasileiro chegou a acreditar que tinha marcado. Banks conseguiu chegar à bola e desviá-la por cima da barra.
Décadas depois, o lance continua a aparecer nas compilações das melhores defesas da história do futebol.
Mas reduzir Banks a esse momento seria injusto.
Quatro anos antes, tinha sido o guarda-redes da Inglaterra campeã mundial em 1966. Era tecnicamente muito sólido, ágil e particularmente forte no posicionamento.
Não procurava o espetáculo. A segurança vinha primeiro.
5. Peter Schmeichel
Peter Schmeichel parecia ocupar mais espaço na baliza do que realmente ocupava.
A combinação de altura, força física, voz e personalidade tornava-o intimidante para os avançados. Nos duelos individuais, abria o corpo e reduzia rapidamente o ângulo de remate, obrigando o adversário a decidir sob enorme pressão.
Foi uma das grandes figuras do Manchester United de Alex Ferguson e terminou a passagem pelo clube com a conquista da Liga dos Campeões em 1999.
Antes disso, já tinha sido fundamental numa das maiores surpresas da história do futebol de seleções: a vitória da Dinamarca no Campeonato da Europa de 1992. Na meia-final frente aos Países Baixos, defendeu o penálti de Marco van Basten no desempate.
Há ainda uma ligação especial a Portugal. Schmeichel representou o Sporting e conquistou o campeonato nacional.
6. Dino Zoff
Dino Zoff demonstrou que um guarda-redes não precisa de viver exclusivamente dos reflexos.
A sua grande força estava na leitura do jogo, no posicionamento e numa serenidade quase permanente.
O italiano raramente parecia precipitado. Enquanto outros guarda-redes procuravam resolver situações com explosividade, Zoff antecipava o problema e colocava-se no lugar onde a bola provavelmente iria chegar.
O ponto mais emblemático da sua carreira aconteceu no Mundial de 1982. Capitão da Itália, levantou o troféu com 40 anos e 133 dias, tornando-se o jogador mais velho a conquistar um Campeonato do Mundo.
É difícil encontrar um exemplo melhor de longevidade ao mais alto nível.
7. Sepp Maier
O futebol alemão dos anos 1970 produziu uma das melhores gerações da sua história, e Sepp Maier era uma peça fundamental dessa equipa.
No Bayern Munique, construiu uma ligação histórica com nomes como Franz Beckenbauer e Gerd Müller. O clube dominou o futebol alemão e conquistou três Taças dos Campeões Europeus consecutivas entre 1974 e 1976.
Na seleção da Alemanha Ocidental, Maier venceu o Campeonato da Europa de 1972 e o Mundial de 1974.
Era extremamente rápido no chão, tinha bons reflexos e transmitia uma sensação de segurança pouco comum.
A sua carreira como jogador terminou após um grave acidente automóvel, mas o seu impacto continuou: mais tarde trabalhou como treinador de guarda-redes e ajudou a transmitir conhecimento às gerações seguintes.
8. Peter Shilton
Poucos nomes simbolizam tanto a palavra longevidade como Peter Shilton.
O guarda-redes representou a Inglaterra durante aproximadamente duas décadas e terminou a carreira internacional com 125 jogos pela seleção, um recorde que continua a colocá-lo no topo da lista masculina inglesa.
Shilton atravessou diferentes fases do futebol inglês e conseguiu adaptar-se sem depender de um estilo particularmente extravagante.
Era um guarda-redes clássico: posicionamento, concentração e decisões simples.
A longevidade por si só não seria suficiente para colocá-lo entre os maiores. O que impressiona é ter conseguido mantê-la enquanto competia durante tanto tempo ao mais alto nível.
9. Ricardo Zamora
Antes de Yashin, Buffon ou Casillas, já existia Ricardo Zamora.
O espanhol foi uma das primeiras verdadeiras estrelas mundiais entre os postes e representou clubes como Espanyol, Barcelona e Real Madrid numa época em que a posição de guarda-redes ainda estava longe da sofisticação atual.
Zamora tinha personalidade, coragem e uma enorme reputação entre os contemporâneos.
O seu legado continua presente no futebol espanhol: o Troféu Zamora, atribuído ao guarda-redes com melhor registo defensivo na principal divisão espanhola, recebeu o seu nome.
Quando a Espanha disputou o Mundial de 1934, Zamora foi também o capitão da seleção.
É impossível fazer uma lista verdadeiramente histórica sem olhar para os pioneiros, e Zamora foi um deles.
10. František Plánička
František Plánička jogou numa época difícil de comparar com o futebol atual, mas a sua reputação entre jogadores e treinadores do seu tempo explica por que continua a surgir entre os grandes nomes da posição.
De estatura relativamente baixa para um guarda-redes, compensava com enorme agilidade, coragem e capacidade de antecipação.
Foi capitão da Checoslováquia no Mundial de 1934 e levou a equipa até à final frente à Itália.
A partida teve, aliás, uma particularidade histórica: continua a ser a única final de um Campeonato do Mundo em que as duas seleções foram capitaneadas por guarda-redes, Plánička pela Checoslováquia e Giampiero Combi pela Itália.
É um nome menos conhecido pelas gerações atuais, mas fundamental para compreender a história da posição.
11. Thibaut Courtois
Thibaut Courtois pertence a uma geração completamente diferente dos primeiros nomes desta lista.
Com mais de dois metros de envergadura funcional graças à combinação de altura, braços longos e excelente técnica, consegue cobrir uma enorme parte da baliza sem perder velocidade de reação.
O belga recebeu a Luva de Ouro no Mundial de 2018 e construiu uma carreira de elite em clubes como Atlético de Madrid, Chelsea e Real Madrid.
Talvez o jogo que melhor represente Courtois seja a final da Liga dos Campeões de 2022. Frente ao Liverpool, realizou várias intervenções decisivas e foi eleito oficialmente Jogador do Jogo da final pela UEFA.
É nos grandes jogos que um guarda-redes constrói parte da sua reputação, e Courtois já possui uma coleção considerável de noites desse género.
12. Manuel Neuer
A posição de Manuel Neuer neste ranking é provavelmente aquela que mais discussão pode provocar.
E há uma razão simples: se o critério fosse apenas a influência sobre o guarda-redes moderno, estaria bastante mais acima.
Neuer ajudou a tornar popular o conceito do sweeper-keeper, ou guarda-redes-líbero. Não defendia apenas a baliza. Jogava muitos metros à frente, controlava a profundidade nas costas da defesa e participava na primeira fase de construção quase como mais um jogador de campo.
A UEFA chegou a destacar que o seu estilo ajudou a popularizar precisamente essa nova forma de olhar para a posição.
No Mundial de 2014, foi campeão pela Alemanha e recebeu a Luva de Ouro de melhor guarda-redes da competição.
Yashin ajudou a transformar o guarda-redes do passado. Neuer fez algo semelhante no futebol moderno.
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Qual destes guarda-redes tinha o melhor estilo?
Não existe um único modelo de excelência.
Casillas dependia muito da rapidez de reação. Buffon fazia do posicionamento uma arte. Schmeichel dominava a área através da presença física. Courtois combina dimensão com técnica. Neuer transformou a participação com os pés numa parte essencial da posição.
E Yashin apareceu antes de praticamente todos eles, quando muitas dessas ideias ainda estavam a ser desenvolvidas.
Essa diversidade é precisamente aquilo que torna difícil escolher o melhor guarda-redes da história.
Outras listas sobre os melhores guarda-redes de todos os tempos podem apresentar ordens diferentes, especialmente quando atribuem mais importância aos títulos, às estatísticas ou ao futebol moderno.
Neste ranking, o impacto dentro da própria época tem um peso particularmente importante.
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Fora do top 12: dois guarda-redes que merecem destaque
Um ranking histórico exige tempo.
Por isso, há jogadores em atividade que podem estar entre os melhores do futebol atual, mas que ainda precisam de acumular temporadas e grandes momentos antes de serem comparados diretamente com carreiras como as de Buffon, Yashin ou Casillas.
Dois nomes merecem atenção especial.
Diogo Costa
Para o público português, Diogo Costa é provavelmente o nome mais interessante desta discussão neste momento.
Formado no FC Porto, assumiu a baliza dos dragões e da seleção portuguesa ainda relativamente jovem e desenvolveu um perfil muito adaptado ao futebol moderno.
É rápido a sair da baliza, confortável com a bola nos pés e forte em situações de penálti. Ao mesmo tempo, melhorou bastante no controlo da área e na tomada de decisão.
O seu desempenho no Mundial reforçou ainda mais essa reputação. Nos Power Rankings da FIFA, Diogo Costa terminou com 8,44 pontos na categoria “Defending the goal”, a melhor classificação entre os guarda-redes nessa métrica.
É importante fazer uma distinção: os Power Rankings analisam o desempenho naquela competição e não representam um ranking histórico.
Ainda assim, o resultado mostra o nível a que Diogo Costa já consegue chegar nos maiores palcos.
Se mantiver esta regularidade durante vários anos, a discussão deixará provavelmente de ser apenas sobre os melhores guarda-redes portugueses da sua geração.
Matvey Safonov
Matvey Safonov merece ser observado por razões diferentes.
O guarda-redes russo desenvolveu-se no Krasnodar, onde ganhou experiência como titular ainda jovem, antes de dar o salto para o Paris Saint-Germain.
Safonov mede 1,92 metros e combina essa dimensão física com bons reflexos e capacidade para permanecer equilibrado nos duelos individuais.
A adaptação a uma equipa que joga frequentemente com a defesa subida obrigou-o também a participar mais longe da própria baliza e a tomar decisões rápidas com bola.
Segundo o Paris Saint-Germain, Safonov chegou ao clube depois de 175 partidas pelo Krasnodar e continua integrado no plantel parisiense. O clube destaca também o seu rendimento em jogos de elevado nível durante as primeiras temporadas em Paris.
Ainda é demasiado cedo para colocá-lo num ranking histórico como este. Mas já possui características suficientes para justificar atenção entre os guarda-redes da atualidade.
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Então, quem é o melhor guarda-redes da história?
Neste ranking, Lev Yashin ocupa o primeiro lugar.
Não apenas pela Bola de Ouro, mas porque conseguiu destacar-se numa época em que a posição tinha muito menos reconhecimento individual e ajudou a alterar aquilo que se esperava de um guarda-redes.
Buffon aproxima-se pelo extraordinário nível mantido durante tantos anos. Casillas tem a seu favor uma coleção única de grandes títulos. Neuer talvez tenha provocado a maior transformação tática da posição nas últimas décadas.
É exatamente por isso que a discussão nunca ficará completamente encerrada.
O melhor guarda-redes não é apenas aquele que sofreu menos golos. É aquele que, durante a sua época, fez coisas que poucos outros conseguiam fazer.
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FAQ
Quem é considerado o melhor guarda-redes de todos os tempos?
Lev Yashin é frequentemente apontado como o maior guarda-redes da história. Continua a ser o único jogador da posição que venceu a Bola de Ouro, conquistada em 1963.
Quem foi melhor, Buffon ou Casillas?
Depende do critério. Buffon destacou-se pela longevidade, posicionamento e consistência, enquanto Casillas teve reflexos extraordinários e conquistou três Ligas dos Campeões, dois Europeus e um Mundial. Ambos pertencem à elite histórica da posição.
Qual guarda-redes mais mudou o futebol moderno?
Manuel Neuer é um dos candidatos mais fortes. A sua capacidade de jogar fora da área, participar na construção e controlar a profundidade ajudou a consolidar o modelo atual de guarda-redes-líbero.
Porque é que Diogo Costa não aparece no top 12?
O ranking privilegia o legado acumulado ao longo de carreiras completas. Diogo Costa já apresenta rendimento de elite, mas ainda está a construir a sua história. Por isso, surge num bloco separado dedicado aos nomes atuais.
Matvey Safonov pode entrar entre os melhores guarda-redes da história?
Ainda é cedo para fazer essa comparação. Safonov já mostrou qualidade em contexto de alto nível, mas precisa de manter esse rendimento durante mais temporadas para ser colocado ao lado das grandes referências históricas.
Qual foi a defesa mais famosa de um guarda-redes?
A defesa de Gordon Banks ao cabeceamento de Pelé no Mundial de 1970 é uma das mais famosas da história. A jogada continua a ser considerada uma referência de reflexos, técnica e capacidade de reação.














