
Por João Maurício
O conceituado jornal Correio do Ribatejo publicou na última página da sua edição de 12 de dezembro de 2025, uma excelente crónica escrita pelo jornalista João Paulo Narciso com o título “Bluff ou Abismo”.
Transcrevemos uma pequena parte desse texto: «O que se passa com os jornais passa-se noutros sectores. Fecham-se centros de saúde, escolas, ligações rodoviárias, agências bancárias, postos dos CTT, alegadamente por não ser rentável mantê-los e, com isto, desertifica-se, cada vez mais, o interior, nesta marcha triste, rumo a um abismo servido de bandeja de pechisbeque pelas redes sociais, onde haverá sempre quem acredite que chegam para ficar bem informado … Portugal é cada vez mais Lisboa. O resto é cada vez mais paisagem».
Felizmente que, hoje, já não vivemos no tempo da censura, nem do pé descalço, nem do analfabetismo endémico ou do obscurantismo. Mas continuamos a ter uma minoria egocêntrica que olha para o interior (e até para algumas zonas do litoral) com desdém.
Com regularidade vou, por razões familiares, a um concelho que faz fronteira com o Ribatejo e o Alentejo. Noto um mal-estar entre essas populações que se sentem abandonadas pelo chamado poder central. Aí, o poder democrático alfacinha só aparece quando “o rei faz anos”.
Foi há meio século que aconteceu o 25 de Novembro. Há quem goste e quem o deteste. A verdade é que foi um acontecimento importante da nossa História Contemporânea. A revolução chilena não teve um 25 de Novenbro e, por isso, apareceu o ultra ditador e sanguinário Augusto Pinochet. À esquerda chilena faltou-lhe o bom senso e por isso “esticou a corda”. Entre nós, existe uma “pseudo-intelectualidade” que tem o seu rosto numa minoria de comentadores televisivos que ignora o que se passou na província, durante o PREC. Para alguns, o País começa no Bairro de Alvalade e acaba no Rossio. Triste e mesquinha visão sobre uma nação que caminha a passos largos para os 900 anos de idade.
Os movimentos sociais são assim: incontroláveis. A História não se inventa! Acontece!
O historiador Afonso de Sousa publicou recentemente um interessante trabalho sobre o PREC na região de Leiria. Transcreve as palavras retiradas de um cartaz que um popular mostrava, perto da Base
Aérea de Monte Real e que dizia “Se isto não é o Povo, onde é que está o Povo?”.
Um historiador é alguém que deve interpretar e compreender o passado e não imaginá-lo. Ninguém deve meter a cabeça na areia e pensar num país que não existe!
Eça de Queirós foi um escritor genial, viveu a maior parte da sua vida no estrangeiro, mas conhecia Portugal como ninguém. Lançou sobre o seu país um olhar muito crítico, na esperança de que o mesmo se transformasse.
A verdade é que algumas mentalidades da época foram-se reproduzindo, tristemente, até hoje. Mantiveram como slogan, o centralismo doentio e retrógrado.
No famoso livro “Os Maias”, no capítulo VI, é possível ler: “Portugal é Lisboa. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada (Terreiro do Paço) e S. Bento”. Eça morreu em 1900, já lá vão muitos anos, mas algumas mentalidades não se reciclaram. Têm aparecido nos últimos tempos, livros sobre o PREC; quase todos ignoram o que se passou em Rio Maior, como se fôssemos um mundo menor!
Isto prova que Eça continua muito atual. Infelizmente!















