

As famosas botas de elástico da Benedita, desenhadas pelo artista artista plástico José Estrela
Por João Maurício
“Há algo de mágico numa oficina de sapateiro” – Carlos Newton Júnior, poeta brasileiro.
Antigamente, a expressão “bota de elástico” usava-se mais, mas às vezes, ainda se vai ouvindo. Serve para descrever alguém que é antiquado, conservador e que diz “não” às mudanças. Tudo tem a ver com as botas antigas, tipo calçado tradicional rural, que era o oposto dos sapatos mais modernos A escritora Alice Vieira escreveu em 2023, no jornal “Sol” um interessante texto sobre as famosas botas. “Quem diria que, passados tantos anos, as botas-de-elástico voltaram a estar na moda. E faz todo o sentido, pois são cómodas e práticas. Evitam a trabalheira dos atacadores e, ao serem mais fechadas, protegem da água”.
Agora, estas botas são mais modernas, mais bonitas, algumas de cores vivas e bem caras. Têm forro interno, tecido macio e respirável, o que proporciona maior conforto, com palmilha acolchoada e forrada e com sola de borracha antiaderente e com “looks” variados e, por isso, para as senhoras, mais sofisticadas. Hoje, quase não há sapateiros, mas como dizia o velho Simão, são técnicos de calçado. As velhas botas-de-elástico eram feitas à mão e usadas pelos trabalhadores rurais feitas na Benedita.
No norte do país, nomeadamente S. João da Madeira, produziam calçado fino e de senhora. Hoje, as conhecidas botas mais rudimentares e parecidas com as de antigamente são apelidadas de calçado artesanal. A realidade é que já não são feitas de modo manual, mas com o auxílio de máquinas. Um mundo diferente.
Quando eu era miúdo, há quase setenta anos, passava pela oficina do Joaquim Patareco e via toda aquela ambiência própria de uma oficina de sapateiro, comum a todas as oficinas locais que, hoje, quase não existe. Seriam, hoje, verdadeiros museus ao vivo. Há muito que deixámos de ver os sapateiros a acabarem as botas-de-elástico: o acertar das solas com uma faca e uma grosa e o alisamento com um pedaço de vidro. Nos primeiros seis meses de ofício, um aprendiz não ganhava, pois durante esse tempo, “dá mais perda que ganho”. Quando já sabia fazer umas botas, começava a ganhar à jorna ou à peça. Só por volta dos 25 anos se considera “oficial” e, depois, ia-se aperfeiçoando na arte. Dizia-se que o sapateiro tinha três pedras: a primeira, a pedra de amolar, para afiar as facas; a segunda é a paciência e a terceira para bater a sola. A segunda “pedra” é uma alegoria – o trabalho moroso que exigia paciência.
Palmilhavam, coziam, num ritmo cadenciado. Sentados em velhos e gastos bancos de madeira muito baixos, com um avental de couro, faziam longos serões à luz de candeeiros de petróleo que, mais tarde foram substituídos pelo “Petromax”. Depois de prontas, as botas saíam da Benedita e eram vendidas em Peniche, Bombarral, Caldas da Rainha, Coruche, Seixal e outras terras do sul.
Outros sapateiros faziam a chamada “Rota das Feiras” – Cartaxo, Coruche, Manique do Intendente, Marinhais, Alcoentre, Rio Maior e Santarém. As botas-de-elástico, consideradas “calçado grosso”, estavam sempre presentes, em destaque com caraterísticas diferenciadas: tinham duas barras de elástico laterais que substituíam os atacadores ou correias. E, claro, eram de uso exclusivo masculino. Ainda me lembro de alguns desses fabricantes: António Quitério, dos Candeeiros; José Henriques, da Benedita; Eduardo Quitério, da Venda da Rega, entre outros.















