
Por João Maurício
A temática das rotundas causou sempre polémica. Não é por acaso que a conceituada revista ”Sábado” (edição de 17 de junho deste ano), publicou um artigo sobre “Contratos milionários nas autarquias”. Um texto polémico que aborda os “desvios” de alguns municípios, onde se diz que “há autarquias a comprar milhares de livros de ficção sem aparente interesse”. No subtítulo, diz-se que “o poder local gasta milhões todos os anos em adjudicações bizarras, incluindo medalhas e rotundas”. A verdade é que o articulista, neste caso específico, não refere que câmaras municipais optaram por esse caminho.
Ficaram célebres as rotundas que proliferaram em Viseu, construídas nos mandatos de Fernando Ruas.
Gosto particularmente da que existe no IC2, no entroncamento da Tremoceira, onde a mesma reproduz com alguma originalidade o emblemático Castelo de Porto de Mós.
Há rotundas conseguidas, outras sem lógica. Cito, ao acaso, a dos anzóis, em Santa Cruz, no concelho de Torres Vedras. Conheço bem a terra e, por isso, aqui vai o meu desabafo. Santa Cruz não é terra piscatória nem nunca teve porto de abrigo. É, sim, terra de veraneio. Pergunto-me. Porquê os anzóis?
Antes de tudo, direi que, ao contrário de muitos que opinam nas redes sociais, sou a favor das rotundas, já que as mesmas ajudam a organizar o trânsito e a reduzir a velocidade dos veículos. Se não existissem, muitas avenidas das nossas cidades e vilas, transformavam-se em verdadeiras pistas de autódromos.
No IC2, nos cinco quilómetros da área da Benedita, elas, finalmente, lá estão. O projeto foi idealizado pelo antigo presidente da Câmara de Alcobaça, já lá vão uns vinte anos. Gonçalves Sapinho é hoje uma figura esquecida. Sinais dos tempos. Levou tempo, mas só agora se concretizou. Causaram polémica. Numa delas, a representação da figura de Cristo e de sua mãe Maria é, no mínimo, controversa. Uma espécie de ilusão ótica que nos leva ao imaginário. É que os padroeiros da Benedita são Santa Maria e S. Brás. Há, aqui, falta de rigor histórico.
O autor da escultura deveria ler o livro “Tempo Imemorial – História da Benedita” de José Luís Machado, “o Zito” e veria qual é a matriz religiosa da freguesia. Aquela originalidade de terem ido buscar mármore do Alentejo e esquecerem o calcário da nossa região, dá que pensar. Até na arte, deve haver alguma racionalidade e lógica.
Das três rotundas beneditenses, a única conseguida é a que projeta a frontaria do Mosteiro de Alcobaça. A que tem as barras de ferro, simbolizando a indústria beneditense, é a menos conseguida, porque demasiado “genérica”.
O grande símbolo industrial da Benedita é o calçado, atividade que vem de tempos ancestrais.
Perdeu-se uma grande oportunidade de homenagear os velhos sapateiros da Benedita que pelo rolar da vida já cá não estão. Abasteciam de calçado o Oeste, o Ribatejo, a Grande Lisboa e a margem sul. A homenagem deveria ter sido prestada a esses homens, construindo uma rotunda recordando os velhos artesãos.
Dever-se-ia ter seguido o exemplo de São João da Madeira, onde existe uma bela e expressiva estátua do sapateiro. A modernidade é planificar o futuro sem esquecer o passado.
Hoje, já são poucos os sapateiros e, por este andar, vão ser esquecidos. Infelizmente!















