
Por João Maurício
José Alberto Vasco escreveu recentemente um texto do qual transcrevemos uma pequena parte: «… do Café Restaurante Trindade, venerável casa que durante mais de 100 anos vincou o seu incomparável lugar entre a restauração alcobacense, que assim vai desaparecer mais um daqueles seus espaços de eleição.
O desaparecimento do Café Trindade é mais um inquietante sinal de uma Alcobaça que dia a dia vai desaparecendo, com um centro histórico que a nível comercial é actualmente uma deprimente sombra daquilo que já foi, embora a memória do Trindade esteja já entre aquelas que serão para nós sempre inspiradoras». O atual proprietário do espaço António Laureano deixou na comunicação social uma comovida despedida. “Um lugar onde se criaram amizades, rotinas, histórias que atravessaram gerações. E é isso que explica a reação da cidade: surpresa, incredulidade, tristeza.
O Trindade era casa para muitos. Um sítio onde se entrava e se sabia quem estava ao balcão., onde os pais levaram filhos. Onde celebraram vitórias, se aliviaram dias difíceis e se marcaram encontros que mudaram vidas. Não uma escolha, mas uma realidade que tivemos de aceitar. As memórias não se apagam. Elas ficam na cidade, nos clientes, nos que ali cresceram e nos que ali voltavam sempre. O Trindade fecha portas. Mas a história, essa continua a viver em Alcobaça».
Foi fundado em 1924 por Alberto Trindade. Inicialmente, era apenas um café, passando depois, também, a ser restaurante. Por aquela casa passaram pessoas de todos os estratos sociais e políticos como António de Oliveira Salazar. Quem por ali passou recorda o teto de madeira, os candeeiros, os vitrais, os painéis de azulejos e as cantarias da entrada.
Couto de Pinho era um alcobacense que tinha em Rio Maior, uma casa de venda de máquinas de costura. Foi ele que levou a Alcobaça António Gavino, maestro da Orquestra Típica de Rio Maior.
Numa noite de maio de 1956, fará brevemente setenta anos, os dois reuniram-se no Café Trindade com alguns alcobacenses e foi aí, que ficou decidido fundarem a Orquestra Típica de Alcobaça. Aquele espaço ficou para sempre ligado àquela famosa agremiação musical.
A CUF tinha uma equipa de futebol que militava na primeira divisão. Naquela altura não havia autoestradas. Quando o Clube se dirigia ao Norte parava sempre para almoçar no Trindade. Foi, aí, que pedi um autógrafo ao Mário João, jogador do clube do Barreiro que tinha sido campeão europeu pelo Benfica. Lembro-me, também, mesmo quando já havia pacotes de açúcar, continuavam a existir açucareiros nas mesas para as pessoas se servirem.
Aquele estabelecimento comercial antes do 25 de Abril chegou a ter um porteiro com farda e chapéu, para abrir a porta aos clientes. Impedia, assim, a entrada dos “asilados”, verdadeiros marginalizados que viviam no Asilo de Mendicidade que ficava perto. Era um tempo em que as diferenças sociais eram bem vincadas.
A verdade é que os velhos cafés vão fechando por este país fora. Encerrou, recentemente, “A Confeitaria Cister”, em Lisboa, na Rua da Escola Politécnica, que eu tão bem conhecia. Fora fundada em 1838. Ao acaso, lembro-me de outros por onde passei: o Café Santa Cruz, em Coimbra (1923); o Café Paraíso, em Tomar (1911); o Café Vianna, em Braga (1871).
O Trindade chegou a ser uma referência nacional pela qualidade do serviço prestado e pela excelente gastronomia, situação que nos últimos anos, segundo alguns frequentadores, já não era a mesma.
A vida moderna rouba-nos tempo para as pausas e, por isso, muitos dos velhos cafés vão apagando por questões de rentabilidade económica. Afinal, quase tudo acaba. As terras foram-se alterando socialmente, num ritmo mais ou menos acelerado. Já não existe a Alcobaça viva e dinâmica., onde estudei. Até a pequena elite local, com as suas virtudes e defeitos, foi dando lugar a outras mentalidades. A cidade foi sendo ofuscada pelo desenvolvimento das vizinhas Caldas da Rainha e Leiria. A época áurea de Alcobaça esfumou-se como areia entre os dedos. O fim do Café Trindade é, apenas, mais uma cena do mesmo filme. Ficam as memórias!
Era um espaço com uma decoração à antiga que, hoje, salvo raras exceções, já não existe. Aquelas casas de uma época em que não havia televisão transformaram-se em raridades. Foi “poiso” de Zeca Afonso, quando lecionava na Escola Técnica local. No prédio ao lado existiu a sede do P.P.D. e bem perto a do P.C. e, por isso, os homens ligados à política frequentavam aquele espaço.
A título de curiosidade direi que durante o P.R.E.C., o militar Ramiro Correia foi incomodado com impropérios por parte de populares. O dito Capitão de Mar e Guerra, chefe da 5ª Divisão do Estado Maior das Forças Armadas, fardado, entrou no Café para tomar uma “bica”. Foi reconhecido e foi alvo de gestos menos dignos.
O comércio tradicional vai definhando. Hoje, essas casas, são, relíquias de um passado que já não tem “pernas para andar”.
Sinais do novo tipo de sociedade em que estamos inseridos. Com nostalgia, resta-nos aceitar esta “revolução”.















