
Por João Maurício
Chegou-me às mãos a obra “ A Cutelaria em Santa Catarina e Benedita nos séculos XX e XXI”.
O livro foi lançado recentemente durante o 5º Encontro Mundial das Capitais de Cutelaria, realizado no passado mês de maio, nas Caldas da Rainha.
O autor é António Santos Real, antigo oficial de Cavalaria, investigador irrequieto que passou à estampa o resultado das suas pesquisas sobre a temática referida anteriormente na nossa região. Um livro magnífico que nos fala da vida laboral e familiar dos artesãos navalheiros. A obra reproduz a arte e a técnica de fazer navalhas e canivetes, as vivências das pessoas e a vida dos obreiros artesãos e dos vendedores de cutelarias que distribuíam o produto pelo país, nomeadamente pelas terras do sul.
Na página 97, António Santos Real diz-nos que consultou registos paroquiais de Rio Maior, onde foi encontrar referências (século XIX) à profissão de cuteleiros. Estavam, também, ligados à profissão de ferreiro.
Joaquim Policarpo, que após o serviço militar se fixou na Mata de Baixo (Rio Maior), no século XIX, tinha uma oficina de ferreiro e onde fazia enxadas, facas, canivetes de enxertia e navalhas. Aí, criou uma espécie de “escola” para muitos aprendizes que queriam ser cutileiros.
Estamos perante uma obra muito bem elaborada. A edição é da Associação Empresarial do Oeste, cujo presidente Jorge Barosa nos diz na introdução que este livro «constitui um registo de enorme valor para a preservação da memória e identidade da fileira da cutelaria».
Santa Catarina e Benedita são freguesias vizinhas; a primeira fica no concelho das Caldas da Rainha e a segunda, no município de Alcobaça.
Existe, agora, em Santa Catarina um movimento, cujo objetivo é edificar um museu de cutelaria para recriar o ambiente das antigas oficinas, onde, durante várias gerações se foi moldando o ferro. Os operários levantavam-se de madrugada para realizarem um trabalho penoso. Esse espaço museológico será uma forma de construção da identidade histórica daquelas freguesias, simbolizando aspetos do seu desenvolvimento económico.
António Real faz um estudo sobre a origem de muitas firmas de cutelarias da região e faz a compilação de adágios e provérbios sobre o tema. O seu livro está profundamente ilustrado de navalhas e canivetes das várias décadas do século XX. Ao acaso, refiro, apenas, as que eram usadas na enxertia das vinhas e as facas raspadeiras de meados do século XX.
Vivemos numa época em que as pessoas que mais deram de si à comunidade estão a ser esquecidas. Por isso, recordo alguns nomes ligados à cutelaria beneditense: António José Inácio (1895-1970); António Jacob dos Santos (1918-1986); José Marques dos Santos (1923-1999); António Marques da Silva (1928-2016); António Caetano Penas (1932-2015); António José Ribeiro de Almeida (1884-1977); António da Conceição Serralheiro (1923-2008); Luís Jorge (1904-1962); José Jorge (1895-1967); Joaquim Jorge (1907-1997); José Rodrigues Inácio (1938-2000); José Maria Polycarpo (1875-1944); Domingos Jorge Penas (1908-1990).
Muitos destes homens viveram tempos difíceis, mas foram sempre gente que olhou para a frente.
Destaco Luís Jorge que veio a ser presidente da Junta de Freguesia da Benedita. Foi senhor de um espírito empreendedor. Partiu do zero e deixou um império na área da cutelaria. Morreu com apenas 57 anos, o que não lhe permitiu ir mais longe. A obra de António Real deixa perpetuado o seu nome para todo o sempre! Fez-se justiça.
















