
Por João Maurício
Do Instagram, retirámos o seguinte texto escrito a 25 de julho último: Há vidas que passam, outras que permanecem. Ontem, a nossa mãe Maria Zulmira Albuquerque Furtado Marques despediu-se deste mundo. Mas deixou uma presença que o tempo não conseguirá apagar. Escolheu dedicar uma parte da sua vida a escutar as pedras antigas, os documentos esquecidos, as vozes da História que ecoaram em Alcobaça. Percorreu arquivos, investigou, escreveu e devolveu à sua terra, fragmentos da sua memória para que nunca se perdessem no silêncio. Nós sabemos que a nossa verdadeira herança não se mede pelo que se possui. Mede-se pelo que se oferece aos outros. E a nossa mãe ofereceu conhecimento, cultura, identidade e memória”.
Estas palavras são da sua filha, a historiadora Vanda Marques.
Zulmira Furtado Marques teve uma vida cheia. Herdou do seu pai as ideias democráticas. José Sanches Furtado foi amigo e apoiante de Humberto Delgado, tendo participado ativamente na campanha da eleição presidencial de 1958, na região oeste. Denunciou os abusos da ditadura. Pagou, por isso, um preço alto por essa “ousadia”. Foi preso pela PIDE.
Num dos seus livros, a filha escreveu “A meu Pai – Homem bom, culto, vertical, honrado que à causa da liberdade, dignidade e justiça social devotou toda a sua vida”.
Zulmira Marques começou a estudar tarde. Fez comigo os exames do antigo sétimo ano dos liceus. Seguiu para Coimbra, onde se licenciou em História. Foi uma historiadora de mão cheia. Publicou uma vintena de livros sobre história regional. Os seus livros foram para mim motivo de consultas pelo seu rigor e por ter sempre colocado, na primeira linha, a verdade histórica.
Diz-se que não se pode escrever sobre História sem consultar os arquivos. Esse foi o seu grande mérito: realizou um trabalho moroso, persistente, feito na sombra, quase sem se dar por isso.
A história, os usos, os costumes de outros tempos, de uma área geográfica situada entre o mar e a serra dos Candeeiros, estão muito bem retratados na sua obra.
São cada fez menos os estudiosos da História da nossa Região. Depois do desaparecimento de Bonifácio Serra, seguiu-se Fleming de Oliveira e, agora, Zulmira Marques. Fechou-se um ciclo.
A Doutora Zulmira, na sua imensa simplicidade, considerou-se um dia “uma modesta divulgadora da História”. Foi muito mais do que isso!
A homenagem que aqui lhe vou prestar é voltar a ler os seus livros que guardo religiosamente.















