
Por Manuela Coelho
Ontem foi dia de manifestações em várias cidades do nosso país e também noutros países. Não pude estar presente na manifestação em Portugal, mas estive de coração e alma com todos aqueles que saíram à rua para defender o nosso país, os nossos direitos e a dignidade de todos os portugueses.
O que me leva a escrever estas palavras é a preocupação com o rumo que Portugal está a tomar. Afinal, fomos nós, cidadãos, que votámos e depositámos a nossa confiança em quem hoje nos governa. Acreditámos, mais uma vez, que as coisas poderiam melhorar. No entanto, muitos portugueses continuam a sentir que as suas dificuldades não são ouvidas e que as suas necessidades ficam para segundo plano.
Está na hora de exigirmos responsabilidades e de pedirmos uma mudança de atitude. Portugal precisa de pessoas que governem com competência, honestidade, humildade, respeito e sentido de responsabilidade, colocando os interesses do país e dos seus cidadãos acima de quaisquer outros.
Temos um país com uma história rica, uma cultura extraordinária e um povo trabalhador. No entanto, são cada vez mais as famílias que lutam para chegar ao fim do mês. Como chegámos a este ponto?
A saúde, a educação e a habitação não podem continuar a ser preocupações constantes para quem vive e trabalha em Portugal.
Na saúde, há pessoas que passam anos à espera de um médico de família e que enfrentam dificuldades para conseguir consultas e cuidados de que necessitam. Todos merecemos acesso a cuidados de saúde dignos e atempados.
Na educação, precisamos de condições que permitam às nossas crianças e aos nossos jovens aprender, crescer e preparar o seu futuro. Um país que não investe na educação está a comprometer as gerações vindouras.
Depois temos o preço dos bens essenciais, dos combustíveis e das habitações, que pesa cada vez mais nos orçamentos familiares, enquanto muitos salários continuam baixos. Como pode uma pessoa viver com dignidade quando grande parte do seu ordenado é absorvida pelas despesas básicas?
E não podemos esquecer os nossos idosos, pessoas que trabalharam uma vida inteira e que ajudaram a construir o país que hoje temos. Muitos vivem agora com reformas que mal lhes permitem pagar as despesas essenciais. Será justo que quem tanto deu à sociedade tenha de enfrentar tantas dificuldades na velhice?
Também me preocupa o futuro dos nossos jovens. Que condições lhes estamos a oferecer para que possam ficar em Portugal, constituir família, comprar ou arrendar uma casa e construir uma vida com estabilidade? Não deveríamos criar melhores oportunidades para que não se sintam obrigados a emigrar à procura daquilo que não conseguem encontrar no seu próprio país?
É igualmente necessário falar da agricultura e do interior. Durante muitos anos, Portugal produziu uma parte significativa daquilo de que precisava. Hoje, dependemos de muitos produtos vindos do estrangeiro. Não podemos esquecer uma verdade simples: se o campo não produzir, a cidade não come. Precisamos de apoiar quem trabalha a terra, valorizar os agricultores e criar condições para que a produção nacional tenha futuro.
A segurança é outra preocupação que não pode ser ignorada. Todos temos o direito de viver sem medo, de circular nas ruas em segurança e de saber que os nossos filhos estão protegidos. Quando acontecem crimes graves, sobretudo contra crianças e pessoas vulneráveis, é natural que a sociedade exija respostas, justiça e medidas que previnam novas tragédias. A segurança e a justiça devem ser garantidas com seriedade, respeitando a lei e os direitos de todos.
Quero também deixar claro que não sou contra os imigrantes. A imigração não deve ser transformada num motivo de divisão entre pessoas. O que defendo é que as regras sejam claras, aplicadas de forma justa e acompanhadas de políticas que garantam condições dignas para todos. Os portugueses não devem sentir-se abandonados no acesso à habitação, à saúde ou a outros serviços públicos, tal como ninguém deve ser discriminado pela sua origem. O problema deve ser discutido com seriedade, procurando soluções para as dificuldades que afetam toda a população.
Reconheço ainda que muitas empresas enfrentam uma carga fiscal elevada e dificuldades para aumentar os salários. Por isso, é necessário encontrar soluções que permitam às empresas sobreviver e crescer, sem esquecer que os trabalhadores precisam de receber uma remuneração justa pelo seu esforço.
Afinal, que país queremos deixar às próximas gerações? Um país onde os jovens partem, os idosos vivem com dificuldades, as famílias fazem contas a cada euro e os trabalhadores sentem que o seu esforço não é suficiente para viver com tranquilidade? Ou um país onde trabalhar compensa, os serviços públicos funcionam, a justiça é eficaz e todos têm oportunidades para construir um futuro digno?
Gostaria que os nossos governantes experimentassem, por um momento, as dificuldades sentidas por tantas famílias: viver com o salário mínimo, pagar uma renda de acordo com os preços atuais, deslocar-se diariamente para o trabalho, enfrentar a falta de um médico de família e preocupar-se com o futuro dos filhos. Talvez assim compreendessem melhor a angústia de quem sente que trabalha cada vez mais e consegue cada vez menos.
Não escrevo estas palavras por querer ver Portugal dividido. Escrevo porque me preocupo com o meu país e porque acredito que os portugueses merecem ser ouvidos. Criticar não significa deixar de amar Portugal. Pelo contrário, é precisamente por querer um país melhor que não consigo ficar indiferente ao que acontece à nossa volta.
A democracia dá-nos o direito de manifestar a nossa opinião, exigir responsabilidades e pedir mudanças através dos meios democráticos. Os nossos governantes devem lembrar-se de que estão ao serviço dos cidadãos e de que a confiança recebida nas urnas implica uma responsabilidade perante todos.
Portugal não pertence a um governo, a um partido ou a um grupo de pessoas. Portugal pertence a todos nós.
Está na hora de ouvir quem trabalha, quem cuida, quem ensina, quem produz, quem procura emprego, quem está reformado e quem luta diariamente para dar uma vida melhor aos seus filhos.
Porque um país não se mede apenas pela sua riqueza ou pelos números da economia. Mede-se também pela forma como trata os seus idosos, protege as suas crianças, apoia as suas famílias e respeita quem trabalha.
Portugal tem história, tem recursos e tem pessoas capazes. O que precisamos é de um futuro construído com responsabilidade, justiça, respeito e humanidade.
Que a voz de quem hoje saiu à rua, e também de quem não pôde estar presente, mas partilha as mesmas preocupações, não seja ignorada.
Por Portugal, pelos portugueses e por um futuro mais digno para todos.














