
Por João Maurício
Toda a área que vai do Oeste ao Ribatejo e passa pela chamada Alta Estremadura tem uma importante gastronomia com larga história. Essas memórias dariam longas crónicas. Hoje, deixo um pequeno texto sobre o assunto. Quando, em 1975 fui trabalhar para a Escola Comercial e Industrial de Tomar, o professor Manuel Guimarães já de lá tinha saído. Foi pena, porque com ele teria aprendido muito, já que aquele beirão era um profundo conhecedor da gastronomia da nossa região.
No seu admirável livro “À Mesa com a História”, conta-nos que Salazar, durante quase cinquenta anos, comia sopa a todas as refeições. As suas preferências iam para o caldo verde e para a sopa de nabiças a que juntava a broa de Santa Comba desfarelada.
Muitos não saberão que o consumo entre nós dos chamados “caldos” é uma herança que nos chegou dos romanos.
Diziam os antigos que “o pão e o vinho juntam-se à sopa”. O tema levar-nos-ia muito longe, mas deixamos uma referência à “Sopa do Vidreiro”, alimento antigo e típico da Marinha Grande. Levava bacalhau, pão duro, azeite, alho, ovos, batatas, salsa e broa. Era o almoço dos vidreiros, gente pobre, noutros tempos. Ficará para outra altura contar a história do frango na púcara, prato caraterístico de Alcobaça.
Vamos até à Batalha. José Travassos Santos nasceu em 1931 e ainda é, felizmente, vivo. Amigo do Dr. João Pulquério de Castro, é um estudioso do folclore e jornalista amador. Em 2007, escreveu um belo texto sobre “A Taberna da Ti Angelina”, publicado no livro “Contos e Sabores da Alta Estremadura”. Este espaço situava-se junto ao Mosteiro da Batalha. Uma casa famosa onde, em 1870, almoçaram dois grandes escritores portugueses: Ramalho Ortigão e Eça de Queirós.
A ementa constava de sopa de feijão com couves, seguida de arroz de cenoura e pimentos, que «estava uma delícia», e leitão assado. Os ilustres visitantes chamaram a cozinheira para a felicitarem”.
Aquela taberna era um hino à gastronomia. No “menu” aparecia já a morcela de arroz, ainda hoje especialidade desta nossa zona, os carapaus secos da Nazaré, as sardinhas salgadas, os vinhos do Reguengo do Fetal, os bolos de ferradura (ainda hoje distribuídos aos convidados nos casamentos) e para terminar a refeição, e para facilitar a digestão, uma aguardente dos vinhateiros locais.
Terminamos com uma referência à vizinha Estremadura. Melo Lapa, o conhecido estudioso da matéria em causa, escreveu que “de todas as gastronomias portuguesas, a estremenha é a mais complexa”.
















