
Por João Maurício
Não tenho por hábito ler os anúncios dos jornais diários. Foi por mero acaso que, na edição de 12 de maio do prestigiado jornal “Público”, fui encontrar o edital nº 185/2026 da Presidência da Câmara Municipal de Sintra, assinado a 7 de abril pelo respetivo presidente da Câmara, Marco Almeida.
Trata-se do anúncio do “Prémio Ruy Belo – Obra Poética Publicada”. Diz-nos o texto que “ao abrigo da Revisão do Regulamento de Atribuição de Prémios Literários de Sintra, se encontra aberto o procedimento de candidatura para atribuição do Prémio Ruy Belo referido anteriormente.
O júri tem representantes da Câmara Municipal de Sintra e da Associação Portuguesa de Críticos Literários”. O prémio é de 5 mil euros.
Segundo se entende pela leitura do texto, este projeto existe desde 2022 e tem por objetivo premiar o melhor trabalho sobre a obra do grande poeta, entre todos os que foram entregues no Secretariado do Prémio Ruy Belo. A obra de Ruy Belo tem atravessado os tempos; às vezes, mais falado e estudado, outras vezes menos do que devia.
Não é de hoje essa situação. Na Faculdade de Letras de Coimbra por onde passei, o poeta era quase desconhecido, talvez porque aquela instituição de ensino superior, de alto nível, era mais conservadora e pouco aberta à modernidade da Literatura Portuguesa. Pelo menos, no meu tempo era assim. Na Faculdade de Letras de Lisboa havia uma maior apetência pela Literatura Moderna. Num tempo em que Ruy Belo era, ainda, um desconhecido, o poeta já era estudado naquela casa. Lembro-me da professora Ana Mafalda Leite que veio especializar-se em Literaturas Africanas de Língua Oficial Portuguesa, chamou-nos a tenção para a dimensão literária do poeta riomaiorense.
A ligação de Sintra a Ruy Belo é antiga. O poeta viveu alguns anos naquele concelho, onde escreveu a maior parte da sua obra e onde veio a falecer. A antiga Escola Preparatória de Monte Abraão passou a designar-se, em 1998, por “Escola Básica, 2, 3 – Ruy Belo”. O município sintrense atribuiu o nome do poeta a duas ruas do seu concelho. Quando nos for possível, deixarei aqui um trabalho específico sobre a ligação de Rio Maior a Ruy Belo.
A questão da toponímia é bem curiosa e merece um estudo mais aprofundado.
São vários os concelhos com o nome de Ruy Belo atribuído a vários locais: Vila do Conde, Matosinhos, Rio Maior, Oeiras, Peniche, Seixal, Olhão, Almada, Lagos e Santarém.
Daqui se pode concluir de como é grande a dimensão desta figura da Cultura e Literatura Portuguesas.
Ruy Belo foi um observador crítico das injustiças sociais e políticas do antigo regime. Pagou caro por isso, tendo sido até ostracizado nos meios académicos.
Fazemos nossas as palavras da escritora mexicana Blanca Luz Pulido que disse que Ruy Belo procurou melhorar o mundo através das palavras. Blanca Luz traduziu alguns dos livros do poeta para espanhol. São dela as seguintes palavras: “Ruy Belo seduziu-me com os seus livros e é um nome do século de ouro (Séc. XX) da poesia portuguesa”.















