
Por João Maurício
Dedico este texto ao Sr. Dinis que pela idade que tinha, quando o conheci, já não deve estar entre nós. Simpático, alegre, culto, um pouco solitário, inteligente, pensativo e sereno. Tinha o antigo sétimo ano do Liceu, facto que nessa longínqua época, dava algum estatuto.
Estas palavras são escritas com uma mescla de saudade e emoção.
O Sr. Dinis era chefe de uma estação dos C.T.T. e meu explicador de Matemática. Se as minhas contas estão certas, já passaram 65 anos. Tinha para os “situacionistas” um grande defeito: não gostava de António Salazar. Nem todos gostavam do ditador de Santa Comba.
Dinis recebeu, por via postal, uma encomenda com papéis ditos “subversivos”, mas que estavam cheios de verdades. Entregou-os a outras pessoas para os distribuírem.
Pagou caro por isso. Uma pessoa que lhe era muito próxima, um “informadorzeco” denunciou-o à PIDE. A sentença chegou rápida e fria como a neve. Foi expulso do seu posto de trabalho. Levou uma “facada nas costas”. A maldade humana atingira o auge. Com filhos a cargo, teve de emigrar e começou a vida do zero. Na altura, eu era um miúdo e não entendi o que se estava a passar. Percebi, mais tarde, que a ditadura era perversa, mesquinha e insensível. Maquiavel não teria feito pior. O caciquismo puro e duro não tinha escrúpulos nem o sentido de família ou de amizade.
Passados vinte anos, encontrei o Dinis que me disse que os ressentimentos estavam bem fechados numa gaveta. Era um homem bom.
Esteja onde estiver, daqui vai “aquele abraço”!
Éramos todos muito novos, quando Abril chegou. 52 anos é muito tempo.
Ao contrário de outros povos, como por exemplo o americano, o nosso passado (com grandezas e pontos fracos) é, muitas vezes, apagado nos vários setores da área cultural, como é o caso do cinema.
Nota negativa para os programas escolares que em alguns são pouco independentes. Daí, talvez, alguma apatia dos jovens.
Um dia destes fui ver um espetáculo às Caldas da Rainha sobre Abril, onde a figura central do evento foi Joana Alegre, filha do famoso poeta. Numa sala grande repleta, foram muitos os que estiveram presentes. Aí, foi possível ver que são muitos os que estão com Abril. Grande espetáculo!
Dinis e Joana são pessoas de tempos diferentes. O primeiro viveu as agruras da Ditadura. Joana vive a Democracia na sua plenitude.
Algumas pessoas têm o direito de não gostarem de Abril. Só espero que casos como o de Dinis não voltem a acontecer.















