

Por João Maurício
Natal doce e amargo
Faz agora quarenta e muitos anos a fábrica atravessava uma crise profunda.
Embalavam-se os últimos doces, as deliciosas compotas entravam nas coloridas latas, os excelentes licores enchiam as últimas garrafas. Todo aquele frenesim tinha os dias contados. Tão doces realidades não tinham, ainda, caído no esquecimento; isso iria acontecer lá mais para a frente, quando o stock se esgotasse, por altura d’Os Santos.
Seria para aqueles desmoralizados trabalhadores um Natal triste e amargo, sem sonhos e sem futuro. A falência da firma aproximava-se a passos largos. A crise infiltrava-se no corpo daquela gente. Curvados de tantas canseiras, os operários suportavam a vida nos ombros. Mudos e impávidos, íamos assistindo àquela agonia. O desespero misturava-se com o sabor acre do suor inglório. Destruíram-lhes os sonhos como se tivessem o destino traçado na palma da mão.
Os filhos pequenos que iam passar penúria, fizeram-me recordar a angústia de Augusto Gil no poema Balada da Neve, quando diz “mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim?!”
Para esses, o Natal cinzento, sem sabor e amargurado, ia chegar. Para outros seria um Natal quentinho e doce, já que as guloseimas que iriam enfeitar as montras das lojas desapareceriam rapidamente.
Mas, o importante é que no Natal há sempre uma candeia que se acende e nos lembra o mundo da esperança, embora misturado com o consumismo próprio da época.
Nota final – vivemos num tempo em que a realidade e a ficção se misturam numa estranha simbiose.
A verdade é que o texto que acabámos de ler nos retrata situações concretas, acontecidas não muito longe de nós.















