
Por João Maurício
“Em todos os tempos existiram heróis e vilões, generosos e invejosos, corajosos e cobardes, gente com horizontes e gente obtusa”. Estas sábias palavras foram retiradas, com a devida vénia, da obra “A História Repete-se”, escrita pelo jornalista Henrique Monteiro e pelo historiador Lourenço Pereira Coutinho, publicada em outubro de 2025.
O conhecido cantor Manuel Freire que ficou conhecido pela interpretação do poema de António Gedeão, “Pedra Filosofal”, concedeu recentemente uma entrevista ao jornal “Negócios”, onde diz que “O 25 de Abril é muito mal explicado aos miúdos”. Se perguntarmos a um miúdo de 20 anos o que foi o Tarrafal, ele não sabe. Não sabe o que era Caxias”.Freire mostra-se desiludido por algumas promessas de Abril não terem sido cumpridas. “Há uma parte de mim que está desiludida, esperava que tivéssemos conseguido mais”.
Há, de facto, no ar alguma desilusão. É o próprio Henrique Monteiro que, no referido livro, assina um excelente texto intitulado “O 25 de Novembro de 1975, visto por dentro”, onde diz que estivemos à beira de uma guerra civil”. Haverá uma pequena franja populacional que não gosta da Democracia e que sonha com um regime autoritário. Eventualmente, serão na sua maioria jovens que não viveram no tempo de António de Oliveira Salazar e não têm noção do que foram esses tempos com a guerra colonial, perseguições, “medo do vizinho” e outros problemas. A verdade é que há modelos políticos que já não se adaptam ao nosso tipo de sociedade. Tudo tem o seu tempo. Com todas as dificuldades, com todos os espinhos, erros, contradições, injustiças e fragilidades, a Democracia triunfará, porque não há alternativa e é o melhor de todos os sistemas políticos.
“O que nós andámos para aqui chegar!” Lá diz a canção de José Mário Branco, “Eu vim de longe”.Passámos pelo PREC (Processo Revolucionário em Curso) que foi um errocrasso do ponto de vista histórico. A Democracia deveria ter pedido desculpa pelo que se passou. Terão sido presas, nesse conturbado período, cerca de três mil pessoas de forma arbitrária. A maioria esmagadora era gente de “direita”, mas também de outros espaços ideológicos. Houve muitos casos de perseguição pessoal, vinganças impróprias de gente dita bem formada.
O conceituado historiador Rui Ramos fala num número muito maior. Muitas prisões foram feitas de forma louca, não havendo registos das mesmas. Em abril cantaram-se hinos de esperança, mas nem tudo foi retilíneo. As revoluções são curvilíneas. Há injustiças. São imperfeitas, porque o ser humano também o é. Houve a rede bombista de má memória. Houve pessoas – dos dois lados da barricada – que tiveram um papel fundamental na pacificação da sociedade portuguesa. A amnistia foi um ato inteligente.
Recordo, por exemplo, o General Ramalho Eanes. Num patamar diferente, temos o Major Victor Alves, pessoa, hoje, quase esquecida. Figura cimeira do Movimento dos Capitães de Abril, foi Ministro de Educação num momento difícil. Era senhor de um grande bom senso, conciliador com uma grande capacidade intelectual. Contribuiu para que os desvios da Democracia fossem corrigidos.
O Diário de Notícias, edição de 24 de abril publicou na primeira página uma manchete com o seguinte título “Metade dos portugueses estão descontentes com a Democracia”.
A verdade é que 77,6% dos inquiridos num inquérito encomendado pela Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril, dizem que as consequências da revolução foram “mais positivas do que negativas”. Mas 47,3% estão insatisfeitos com a forma como funciona a Democracia. A maioria considera que os conteúdos programáticos nas escolas sobre o 25 de Abril devem ser reforçados. A maioria dos portugueses opinou que se não tivéssemos tido a revolução não teríamos uma Democracia. Há, ainda, uma crítica forte ao tempo da ditadura que fechou as portas, durante meio século, a uma evolução que nos levasse mesmo lentamente, à liberdade.
O PREC foi um curto período negro da História de Portugal. Mas aconteceram outros. Ao acaso cito alguns: começamos pelas guerras entre D. Dinis e o seu filho, futuro rei D. Afonso IV; em 1495, morreu no Alvor D. João II. Muitos historiadores dizem que foi envenenado.Acélebre Batalha de Alfarrobeira entre o Rei D. Afonso V e o seu tio D. Pedro; D. Carlos é assassinado em 1908, assim como o seu filho Luís Filipe, no dia 2 de fevereiro;o assassinato de Sidónio Pais, em 1918, na estação do Rossio, em Lisboa.Não devemos esquecer a Guerra Civil entre Miguelistas e Liberais, no século XIX, assim como a perseguição aos jesuítas pelo Marquês de Pombal e a que foi feita à Igreja durante a Primeira República.
Enfim, a História de Portugal está cheia de momentos gloriosos, mas também de episódios bem tristes, como sucedeu com o PREC que foi um hiato na Democracia, recentemente conseguida. Foram dados muitos passos atrás, pondo a Democracia em risco.
Um antigo presidente da Câmara de um concelho vizinho, foi preso durante esse período. Tinha sido um bom autarca, mas deposto após a 25 de Abril. Por razões fúteis e vinganças mesquinhas, foi detido. Na mesma sede de concelho, havia um ativo militante do MDP/CDE, antes do 25 de Abril. Tinha sido colega na escola primária do ex-autarca com quem estava de relações cortadas. Viria depois a ser militante do P.S. Devido a intrigas, foi detido durante o PREC. Os dois encontraram-se no Forte de Caxias. Duas pessoas de alas políticas opostas, acabaram por ser detidas na mesma altura. Este episódio levou os dois opositores a fazerem as pazes atrás das grades.
O PREC teve episódios como este, caricatos e ridículos. Fizeram-se prisões arbitrárias e sem nexo, só porque sim!
Aqui há tempo, houve um debate entre um populista e um intelectual que eu admiro. Para mim, o primeiro mostrou-se saudosista de um tempo de que não tenho saudades. Mas, de facto, não posso concordar com o intelectual que afirmou que as prisões políticas neste período foram esporádicas. Mas não foi bem assim. Lembro-me do antigo combastente Capitão Marcelino da Mata que foi torturado e não foi caso único. Longe disso!
O que sabem os nossos jovens de hoje desses tempos conturbados? Muitos deles revelam uma confrangedora ignorância e falta de cultura geral, concretamente na área da História de Portugal.
Em boa hora, este governo lançou a ideia de, no futuro, haver necessidade de os alunos, durante as provas de acesso ao ensino superior, terem de realizar uma prova de cultura geral mínima. Não é uma inovação, visto que já acontece em alguns países europeus. Como era de esperar, foram muitos os que vieram criticar tão inteligente ideia. Nivelar por baixo. Enfim, é o que temos!
Nos últimos tempos, têm saído muitos livros sobre o 25 de Abril e o PREC. Muitos desses textos são da autoria de conceituados historiadores, alguns dos quais foram meus mestres que já não estão entre nós.
É de estranhar que na maioria dos casos, muitos detalhes dos tempos conturbados após o 25 de Abril sejam omitidos, nomeadamente o que se passou em Rio Maior. Pessoalmente, acho estranho essa realidade e não encontro razão para que tal aconteça. O que é um facto é que somos um velho povo com pouca memória. Infelizmente!
Stephen King, escritor norte-americano, escreveu que o tempo é o grande ladrão da memória, porque a apaga. Por isso, há que dar razão a Cícero, orador e político romano, que escreveu “A memória diminui … se não for exercitada”. Esse é o papel das escolas!















