

Por João Maurício
Às vezes, lembro-me dos plátanos da Tocha, que vieram a servir de cenário do filme “Uma Abelha na Chuva”, baseado na obra de Carlos de Oliveira.
Quando por lá passo, no Inverno, acho-os irreconhecíveis. São apenas troncos fantasmagóricos que cíclicas podas desastrosas vão desenhando. No Verão, dá-se a metamorfose e, então, a sua sombra é maravilhosa. A igreja e o coreto, silenciosamente, observam este renovar da vida vegetal. Mas, também ali, antes das f´úrias serradoras, há o encanto do cair da folha.
As árvores, às vezes, também se abatem, mesmo que temporariamente. Só que a vida é mais forte.
Há quem diga que os seus ramos danificam os carros, as raízes levantam as pedras das calçadas, as folhas entopem as sarjetas e muito mais. Apesar de, por mero erro humano, estarem muitas vezes inadequadas aos respetivos lugares, elas resistem como verdadeiras heroínas. Das tristes palmeiras à beira-mar, aos ciprestes nas avenidas de algumas cidades, e que nos cemitérios observam a dor, os coloridos jacarandás ao abandono, até aos mal-amados eucaliptos, há de tudo.
Enfim, uma sinfonia de cores e de formas. Cada árvore tem o seu destino e o seu habitat. Mal amadas pelo urbanismo, elas passam despercebidas no meio das cidades. O cair da folha é sempre o fechar de um ciclo, e uma antecâmara de um outro que se inicia com a Primavera. Docemente as folhas amarelecidas cobrem o chão formando fofos tapetes.
O tímido sol aparece entre os ramos despidos, como que a querer beijar-nos. Há, de facto, poesia no ar.
Nunca gostei do mês de novembro, porque nos traz recordações de lutos e solidão, mas que, por outro lado, nos leva à reflexão sobre a vulnerabilidade da vida e que nada dura para sempre, como escreveu Fernando Pessoa/Ricardo Reis, no seu poema “Pois que nada dure, ou que durando…”, que nos faz pensar em que tudo na vida é efémero, nada é permanente neste mundo, como acontece com as folhas das árvores.
Também Helena Sacadura Cabral tem um texto maravilhoso sobre “As Folhas do Outono”, onde nos diz que “há algo de sereno, nesse cair lento… As folhas do Outono dançam ao sabor do vento num ballet silencioso”.
O Outono é, sem dúvida, o tempo de uma doce melancolia bem visível nas cores dessas folhas: castanhas, douradas, e até com um ténue tom aveludado torrado.
Na sua quase tristeza, o Outono ensina-nos a apreciar a simplicidade da vida.
O grande poeta chileno Pablo Neruda dizia num dos seus poemas que apenas queria cinco coisas e uma delas “era ver o Outono”.
Um autor anónimo escreveu um simples poema sobre o tema: “O Outono não deveria / ser lar de tristeza. / Deveria ser fase de nostalgia/ onde nos lembramos dos tempos passados”.
Concordo plenamente!















