
Por João Maurício
Quando eu era muito mais novo, as missas eram em Latim. Lembro-me das celebradas pelo Padre Inácio. Não entendia nada. O sacerdote estava de costas voltadas para a assembleia, simbolizava distanciamento. Achava estranho.
Sei que o Latim é a língua mãe da Igreja Católica. Um legado do passado que transmite tradição e profundidade da fé. Mas a verdade é que o Latim é hoje uma língua morta. Difícil, sempre foi.
O próprio sistema educativo português quase o ignora, foi remetido para o esquecimento. São, atualmente, raras as escolas secundárias onde se leciona a disciplina de Latim.
Falaram-me, há tempos, nas chamadas missas do rito romano antigo em bilingue, com textos em paralelo: Português e Latim. Nunca assisti a nenhuma – e assisti a muitas.
Na minha memória ficou a frase que era dita no início da missa “In nomine Patris, et Filii et Spiritus Sancti”, que quer dizer “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, seguido de uma outra “Dominus vobiscum et cum spiritu tuo”, ou seja “o Senhor esteja convosco e com o teu espírito”. Outras frases repetidas em todas as cerimónias que nos ficaram para sempre : “Agnus Dei, qui tollis peccata mundo, miserere nobis” , “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós”.
Muitos fiéis repetiam sem perceberem o seu significado. As mulheres levavam véus, com o detalhe de serem pretos os das casadas e brancos, os das solteiras.
A chamada Missa Tridentina, de rito tradicional latino foi aprovada pelo Concílio de Trento, em 1545-1563. Segue as normas do concílio, em que o sacerdote está virado para o altar e de costas para os fiéis. As suas raízes são bem antigas. A grande mudança deu-se com o Concílio Vaticano II, cujo grande ideólogo foi no Papa João XXIII.
As grandes reformas acontecidas no interior da Igreja, originaram divisões e existirão sempre, enquanto grupos de cristãos as não aceitarem.
Hoje, o mundo mudou muito e, consequentemente, as mentalidades também. Alguns, para não dizer muitos sacerdotes, não estudam nem sabem Latim. Sem querer politizar o tema, direi que, por exemplo, o ultra conservador António Salazar, que curiosamente tinha sido seminarista, não gostou que tivessem acabado com a missa em Latim. Foram estas as suas palavras “francamente não gostei da transformação conciliar operada”.
É cíclico. Estamos a observar à nossa volta que o conservadorismo litúrgico espreita, entre uma pequena franja de católicos.
O Papa Bento XVI, uma pessoa de grande valor intelectual, abriu meia porta para que tal acontecesse, ao publicar a carta “SUMMORUM
PONTIFICUM”, onde refere que a missa tridentina deve ter o seu lugar, embora com carácter excecional.
A verdade é que há por esse mundo fora – e entre nós, também – muitos jovens que ficam fascinados, encantados por essa liturgia codificada.
Ao ler, por aí, essas teorias da fação mais conservadora da igreja católica, veio-me à memória as aulas de Latim do Padre Doutor João Beato, na Faculdade de Letras de Lisboa.
Oriundo da Diocese de Leiria, fez um percurso universitário brilhante. Era o maior especialista português na obra de Santo Agostinho. Era um homem muito simples, muito culto e moderno. Nosso vizinho, natural da freguesia das Pedreiras, no concelho de Porto de Mós.
O facto de termos um amigo em comum – o Padre José Mendes Serrazina – aproximou-nos. As aulas eram de duas horas, com um intervalo de quinze minutos. Antes de voltarmos aos textos do livro de estudo “ECCE ROMANI” (Eis os Romanos), ficávamos em amena cavaqueira. Fiquei a perceber que o sacerdote era um profundo apologista das teorias do Concílio Vaticano II. Sendo ele um professor de Latim, era, contudo, um defensor da sua exclusão da missa.
Tenho a certeza de que o saudoso Padre João Beato ficaria muito desiludido perante a mentalidade desses pseudopuritanos que querem que o Latim volte em força a fazer parte da liturgia.
Se tal medida for implementada, o povo anónimo não irá entender nada. Mas para esses retrógrados, isso não interessa. O importante é o seu ego!















