
Por João Maurício
Vivemos num tempo em que a realidade e a ficção se confundem numa simbiose imperfeita, numa época em que a tecnologia é, para alguns, uma nova religião. Noutros tempos, a verdadeira fé era mais cristalina e vivida na sua raiz: a simplicidade. Hoje, deixo aqui um breve texto que descreve algo a que eu assisti, uma situação dura e dramática que me impressionou.
Aconteceu no final dos anos cinquenta do século passado. O Sol já começava a pôr-se docemente lá para os lados da Fonte da Senhora. Era véspera de Natal, numa altura em que o País era pobre e a Benedita não era exceção. Os pedintes eram mais que muitos, por toda a parte. Era difícil contá-los. Sempre descalços, acabavam por dormir nos palheiros que encontravam e deambulavam de terra em terra à procura de esmolas que recebiam aqui e ali.
Esfomeado, um velhote percorria o seu calvário e transportava nos ombros as agruras da vida. Exausto, caiu numa valeta. Os seus pés estavam roxos do frio que passava. Pararam algumas pessoas que procuram dar algum apoio. A noite chegou de súbdito, límpida e agreste, porque o frio era muito.
A casa mais próxima era do Vitorino que, já nesse tempo, fazia seguros. Abeirou-se a mãe do Zé, comovida. Foi à habitação e passado um tempo, regressou com um prato de sopa quente e uma côdea de pão.
O pobre homem, já de idade, gasto pelos tormentos da vida, devorou o petisco com avidez e, com muita humildade e comoção, agradeceu à senhora em causa. Foi-se recompondo com a arte de quem não tem pressa. Depois, retomou a sua penosa caminhada, rumo ao Casal da Estrada. Pelo caminho, foi olhando para o céu estrelado que estava belo naquele 24 de dezembro.
Foi nessa altura que me lembrei de um verso de um poeta que, uns dias antes, a minha professora primária, a Dona Odete, tinha recitado numa aula da velha escola que à entrada tinha uma nespereira raquítica. Só mais tarde, vim a saber quem era esse poeta. Aqui deixo, com a devida vénia, uma adaptação do poema Balada da Neve, de Augusto Gil “mas os pedintes, Senhor, porque lhes dais tanta dor? Porque padecem
assim?!” A mãe do Zé Vitorino tinha praticado a verdadeira caridade cristã. O “Natal dos Simples” de Zeca Afonso é uma das belas canções portuguesas. Sempre que a oiço, lembro-me do velho pedinte e da bonita ação daquela mulher.















