

Por João Maurício
Esta crónica foi escrita na noite de 3 de outubro, num momento inspirativo. Dedico-a ao autarca meu antigo vizinho e companheiro de “route”, Miguel Guerra, de boa memória. O Miguel já cá não está, mas penso que rever-se-ia neste texto. Vivemos juntos, por dentro uma campanha eleitoral, já lã vai quase meio século. Este texto só foi enviado para publicação depois do ato eleitoral, para que não tivesse nenhuma conotação partidária. No fundo, é uma prosa de quem viveu quase 25 anos sob a ditadura e, por isso, reconhece as virtualidades da Democracia. Quem presenciou esses tempos difíceis tem uma dívida para com a Liberdade. Custa vê-la denegrida por quem não viveu esses tempos monocórdicos. Em ditadura, esta crónica seria, certamente, alvo do lápis azul. Esta prosa é apenas um desabafo em voz alta sobre tempos antigos.
Abril dava os primeiros passos e os partidos começavam a instalar-se. Lentamente, ia-se afirmando o que era débil. Os primeiros militantes eram muito poucos, cheios de boa vontade e pouco mais. Formação política, ontem, era zero. Agora, pouco mais!
Meia dúzia de militantes do P.S. reuniu à porta do café dos Carmos, na Benedita, já passava da uma da madrugada. Era inverno e o frio ia apertando. Todos sabiam que o objetivo era colar cartazes no Carvalhal de Turquel, terra conservadora e pouco amiga dos socialistas. Numa carrinha de caixa aberta, iam todos os apetrechos necessários para essa atividade. A aldeia já dormia e a iluminação pública era fraca. Encostaram uma velha e tosca escada de madeira à parede lateral de uma casa de primeiro andar, propriedade de um agricultor mais abastado. Os cães começaram a ladrar, cada vez com mais intensidade. Alertado o dono da casa, acendeu uma luz, abriu uma janela e o pequeno grupo viu o cano de uma espingarda que luzia com a pouca claridade que vinha de um candeeiro público, anexado a um poste de eletricidade. “- Quem é que está aí?”- gritou um homem já de certa idade.
Nesse momento todos fugiram. Mas a velha escada ficou abandonada. Com a atrapalhação, o militante que levava o balde da cola, entornou a mesma nos sapatos e nas calças que ficaram irremediavelmente estragadas! Para aqueles jovens foi um grande susto. Por pouco não foram corridos a chumbo de caçadeira!
Hoje realçamos o lado humorístico desta insólita situação. Naquele tempo, as campanhas não eram como hoje. Aquela colagem de cartazes no terreno “inimigo” tinha sido um fracasso. Portugal era uma espécie de país irritado com já fortes antagonismos partidários no Norte e no Sul. E o chamado PREC ainda não tinha chegado!
Abrimos aqui um parênteses para referir a qualidade intelectual dos deputados eleitos para a Constituinte de 1975. Homens de linhas políticas distantes umas das outras. Ao acaso cito nomes de: Henrique de Barros, Amaro da Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Victor Sã Machado, Vasco da Gama Fernandes, Mota Amaral, Sá Carneiro, Lopes Cardoso, Freitas do Amaral, Jorge Miranda, Manuel Alegre, Carlos Brito, Helena Roseta, Basílio Horta, Vital Moreira, Ribeiro Almeida, Sophia de Mello Breyner, Graça Moura, Salgado Zenha, Magalhães Mota, Miller Guerra, e mais alguns, cujo nomes me escapam. O top da sociedade portuguesa estava no Parlamento.
Quem assistiu a essa campanha eleitoral, e ouviu a capacidade discursiva destes homens, não mais a esquece. Mesmo com as discordâncias ideológicas entre eles. Saíamos de lá com a alma cheia. Lembro-me do comício que teve lugar na Praça de Touros das Caldas da Rainha, onde Maria Barroso foi genial, brilhante e de uma ternura sem limites.
O tempo fez milagres. As mentalidades mudaram. Inicialmente, em 1974, tudo era mais difícil. Nalgumas terras, alguns partidos sobreviviam à custa poucos militantes. Era já o tempo da Democracia, mas para alguns, parecia que não. As pessoas têm quase sempre medo do que é novo. Outro comício que me vem à memória aconteceu no Vimeiro com três oradores: Vasco da Gama Fernandes, que depois foi presidente da Assembleia da República, Miguel Guerra, um discreto fruticultor que foi mais tarde presidente da Câmara Municipal de Alcobaça e um engenheiro de cujo nome não me lembro, mas que depois seria Secretário de Estado dos Transportes. Na assistência, numa pequena escola primária, num sábado, apenas cinco pessoas. As ausências tinham a ver com a eventual conotação partidária, o chamado carimbo. Havia uma certa apatia da parte de quem não vestia a indumentária partidária. Tudo aquilo parecia, para esses, encenado, estranho e formatado.
Aplaudido por muitos, contestado por uma minoria de saudosistas, o 25 de Abril instalou-se e veio para ficar. Nesta hora, recordamos os que tanto lutaram por ele e hoje estão esquecidos. Aqueles pioneiros da Democracia viam a vida à luz de um espelho muito próprio e isso era bem visível na simplicidade das campanhas eleitorais da época: muito singelas, algo rudimentares, mas genuínas.
A facilidade em dominar a oratória era- e ainda é – um privilégio de poucos. Ao acaso, recordamos, por exemplo, o lado bem positivo de Mário Soares que conseguia arrebatar multidões. Do outro lado, cito o caso do velho republicano Raul Rego. Um homem que escrevia maravilhosamente, mas que a falar era um verdadeiro desastre.
No mundo autárquico é igual. Há presidentes que têm grande facilidade na dicção e outros nem por isso! Quanto a promessas, estamos conversados. Os dinheiros comunitários vão diminuir – e muito – nos próximos anos. Daqui a uma década serão residuais. As grandes fatias do bolo financeiro comunitário ficarão para países mais pobres.
As campanhas eleitorais trazem sempre uma espécie de festa. Alguns aparecem nessas alturas, e depois hibernam. Outros dizem e prometem coisas sem nexo. Os iluminados prometem o ”bacalhau a pataco”. Mas também há os sensatos que são mais ponderados e sabem que os dinheiros públicos não são um poço sem fundo.
A Democracia a todos acolhe, tudo ultrapassa. Ela é imperfeita, mas resiste. Ainda me lembro das pseudo – eleições de 1969 – uma farsa. Uma verdadeira encenação marcelista. A Democracia é sempre um processo inacabado. Fazemos nossas as famosas palavras de Fernando Pessoa: “Mais do que isto fez Jesus Cristo que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca”.
Eu sou mais terra a terra. Nestas alturas, lembro-me sempre do Carvalhal de Turquel. Foi uma longa caminhada até chegarmos aqui. As campanhas eleitorais são sempre um período de ilusão. Quando elas acabam, voltamos ao mundo real, os problemas não desaparecem e os desafios voltam. Nessa altura, deixamos de acreditar que os autarcas são uma espécie de milagreiros. Depois vamos cair na realidade e pensar que no futuro haverá um grande reforço nas despesas na área da defesa, e, claro, redução nas áreas prioritárias. Segundo alguns especialistas na matéria, dentro de dez anos, a “torneira” dos dinheiros comunitários vai “pingar” muito menos.
Quando essa realidade chegar, as campanhas vão ser mais banais, porque haverá menos dinheiro para prometer e fazer obras!
Li a propaganda eleitoral de vários partidos em alguns municípios. Uma senhora autarca oestina escreveu: “Temos os melhores candidatos e as melhores equipas em cada freguesia”. Percebo que ninguém, no seu perfeito juízo, diga mal da sua equipa. Se o fizesse, estaria a dar tiros no próprio pé.
Conheço bem a realidade do município em causa, aonde me desloco com regularidade, desse 2008 e onde estudei no ano 1961. Ainda bem que a candidata é modesta. Ficaria preocupado se não defendesse a causa própria. Diziam os antigos, e que ainda hoje se aplica, “presunção e água benta, cada um toma a que quer”. (Neste caso, cada uma). São as cenas possíveis das campanhas eleitorais.
Achei graça a um candidato a presidente da junta, também oestina, que pomposamente criou uma Comissão de Honra de apoio à sua candidatura, composta por 24 pessoas com, apenas, três mulheres. Onde está a lei da paridade? Não sabia que o marketing já tinha chegado às freguesias rurais! Se a moda pega, onde é que vamos parar? Dizia o tal senhor “conto convosco”. Estaria a dirigir-se ao eleitorado ou apenas aos elementos “mosqueteiros” da dita Comissão? Pelo menos com essas duas dúzias de fregueses pode contar!
A campanha eleitoral é tempo de balanço. É bom que a memória não seja apagada. O que todos nós andámos “para aqui chegar”!
O livro “História dos Municípios e do Poder Local – dos finais da Idade Média à União Europeia” é um hino ao poder local, mesmo para os que não acreditam nas virtualidades do municipalismo. A obra com seiscentas páginas foi escrita por vários técnicos da área com a direção do Professor Doutor César Oliveira, antigo presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e docente da Universidade Nova de Lisboa.
Nos vários anexos, é possível encontrar dados sobre os investimentos feitos em Rio Maior, pelo poder autárquico, desde 1928 a 1993. Entre a primeira data e 1974, os investimentos foram irrisórios, sendo poucas as obras realizadas e muito pouco comparticipadas pelo governo da ditadura.
Após o 25 de Abril, desse 1986 a 1993, Rio Maior e o seu concelho mudaram radicalmente, graças aos apoios comunitários. Foi um período único e irrepetível. A história é escrita, sempre, pelos vencedores e esses são os que tão bem souberam aproveitar, oportunamente, essas verbas que serão no futuro, cada vez mais raras. Houve concelhos, alguns nossos vizinhos, que deixaram fugir essas oportunidades.
Quem tem dúvidas sobre o que aqui se afirma, leia os anexos da “História dos Municípios e do Poder Local”.















