
Por João Maurício
O que nos derruba, é o que nos dá força para nos levantarmos.
Este texto tem a ver com o chamado património edificado. O Correio da Manhã (edição de 14 fevereiro, pág. 35), publica um trabalho com o título “Temporal provoca danos em mais de 120 monumentos”. O texto é ilustrado com uma foto do Convento de Cristo, em Tomar, que “foi um dos mais afetados pelo temporal das últimas semanas”.
Aí, diz-se que numa contagem feita dias antes, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes falava em 20 milhões de euros para a recuperação dos monumentos. Nessa altura, a listagem referia apenas 50 edifícios.
Posteriormente, a imprensa nacional e regional alargaram o número de edifícios com interesse histórico para 120. Assim sendo, a verba necessária para as obras será muito superior à que foi referida pela Sra. Ministra. Damos nota de alguns dos museus nacionais e municipais que foram atingidos: Santos Rocha (Figueira da Foz), Francisco Tavares Proença Júnior (Castelo Branco), Marítimo (Ílhavo) e a Villa Romana do Rabaçal (Penela). Atingidas foram, também, a Casa-Museu Afonso Lopes Vieira (São Pedro do Sul) e a Igreja Matriz (Cernache do Bonjardim).
Há, ainda, referências a estragos nos Mosteiros da Batalha e de Alcobaça, no Palácio Nacional de Mafra, no Forte Novo (Loulé), no Convento de Cristo (Tomar) e nos Museus: Machado de Castro (Coimbra) e no Nacional de Conimbriga e no da Cerâmica e de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Referimos, ainda, os Conventos de Santa Clara-a-Velha e Santa Clara-a-Nova, na Sé Nova e Sé Velha, e as igrejas de São Bartolomeu e Santa Justa, em Coimbra, igualmente palco do temporal. Existem muitos outros espaços históricos ancestrais que sofreram danos como as muralhas dos Castelos de São Jorge (Lisboa) e de Estremoz e, ainda, em igrejas nos concelhos de Ansião, Ferreira do Zêzere, Alvaiázere e Torres Novas.
Leiria foi, nesta área, um dos concelhos-mártires, já que sofreram estragos consideráveis: Capela de Nossa Senhora da Encarnação, Arquivo Distrital, Castelo, Convento de São Francisco, Sé, Santuário do Senhor Jesus dos Milagres e a Capela de S. João Baptista de Monte Real. Esta lista, como é evidente, está incompleta.
O antigo presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, Paulo Teixeira, em entrevista ao jornal “Sol” de 13/02, diz-nos que “Portugal é um País que não aprende com as tragédias”.
Recordamos que o antigo autarca estava no poder aquando da queda da ponte de Entre-os-Rios. De facto, Paulo Teixeira tem toda a razão. Tivemos um ciclone como não há memória, talvez só comparável ao de 1941. A verdade é que alguns, para não dizer muitos, dos nossos monumentos estão, desde longa data, fragilizados e onde as obras necessárias vão sendo sucessivamente adiadas.
O jornal “O Alcoa” (12/02) chama a atenção com várias manchetes” para o que aconteceu com o património religioso na nossa região. “Paróquias. Temporal expõe fragilidade do património religioso”; “Mosteiro de Alcobaça sofre danos significativos”.
Sobre este monumento, o referido periódico diz: «O Mosteiro de Alcobaça, Património Mundial da UNESCO, também não escapou à tempestade. Segundo Ana Pagará, diretora do monumento, registaram-se danos nas coberturas exteriores da Sacristia Nova, da Igreja, do Claustro D. Dinis e na Ala Sul, com telhas deslocadas, partidas ou arrancadas, avançou ao “O Alcoa”. Neste rol de danos incluem-se ainda os vitrais da Igreja e as janelas do Claustro do Cardeal, que sofreram agravamento do seu estado de conservação. Também aqui se arrancaram árvores históricas: “Na cerca superior, os cedros centenários perderam pernadas inteiras, numa área que já se encontrava em intervenção ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), relata a diretora. Neste momento, os maiores problemas relacionam-se com riscos de infiltrações”, explica a responsável do edifício».
Na Nazaré, a Igreja de Santo António sentiu a força do vento, tendo ficado sem telhas. O mesmo aconteceu na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda (Vestiaria-Alcobaça), na Igreja de São Sebastião (Valado dos Frades), na Igreja da Maiorga, no Mosteiro de Santa Maria (Coz-Alcobaça) e na Igreja da Senhora da Luz (Castanheira-Alcobaça).
É verdade que as pessoas estarão sempre em primeiro lugar das prioridades, mas preservar o nosso património é muito importante.
O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, foi alvo de críticas mesquinhas. Estamos perante um autarca de grande coragem. Transcrevemos as suas sábias palavras dirigidas aos agentes culturais leirienses, retiradas do “Região de Leiria” de 12/02, num elogio emotivo a toda a população de Leiria: “Não esperem ter tudo bem. É preferível
não estar perfeito, mas estar a funcionar. Se perdermos energia na cultura, andamos para traz anos. A confiança que tenho em vocês é a mesma que deposito nos leirienses que hoje sobem aos telhados para arranjar as telhas. É a mesma dos empresários que ficaram com as fábricas destruídas e estão a contratar quem lhes ponha as coberturas para recomeçarem a trabalhar. É esse o nosso ADN e é isso que vai surpreender muita gente”.
Estamos perante uma verdadeira catástrofe que atingiu a vida milhares de pessoas e seus bens e, também, a área do Património Edificado. A não serem reparados os nossos monumentos, essa realidade terá efeitos muito negativos no turismo nacional.
A jovem ministra do pelouro é uma mulher discreta, muito inteligente e que tem, segundo alguns, peso político. Vamos esperar que consiga as verbas para reparar a devastação a que estamos a assistir. Ao contrário do que dizem alguns “populistas”, somos um país com poucos recursos e, por isso, a cultura foi sempre um “parente pobre”.
Terminamos com um pequeno verso de Fernando Pessoa, que escreveu num dos seus poemas, “É hora!”.
É, pois, urgente pôr mãos à obra.















